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Campanha contra os deficientes é uma jogada de marketing

Campanha contra os deficientes é uma jogada de marketing

No dia 30/11, viralizou uma campanha em que se criticavam os “privilégios” do deficiente como vaga especial em estacionamento, isenção de impostos nas compras de carros e preferências no transporte público. Uma petição foi criada em uma página para que pessoas assinassem essa suposta reforma nos direitos do deficiente. Sim, até uma petição foi criada e assinada.

Depois de muitas ofensas e críticas, 24 horas depois, foi esclarecido que a campanha não passava de uma pegadinha para gerar reflexão sobre esse absurdo e para nos motivar a ajudar mais e a sair da zona de conforto. A famosa expressão “jogada de marketing”.

Antes de acharmos genial, super criativo e merecedor de algum prêmio, pois chamou a atenção e enganou todo mundo, devemos refletir sobre como fazemos propaganda hoje em dia, para quem e se de fato estamos sendo relevantes.

Expresso aqui minha opinião sobre o assunto para que possam refletir e discutirmos sobre ação, tudo bem?

O primeiro item a ser discutido é o uso do nome “deficiente”. Uma palavra feia, rude, antiga, ultrapassada e estigmatizada. Portador de necessidades especiais é o termo atual. Depois, o grande problema é que as pessoas estão enjoadas dessas “pegadinhas”, “dribles” e “jogadas” no mundo da propaganda e do marketing. Ser criativo não necessariamente é fazer piada ou brincar com o entendimento das pessoas.

Existe um princípio na comunicação de que ela deve ser clara e objetiva. Sempre. Se gerar ruído e se tem várias interpretações, o emissor falhou. Mesmo tendo a melhor das intenções. A estratégia tem que ser cirúrgica e dar sinais de que aquilo não é real, caso a intenção seja a “pegadinha”.

Criar uma página com uma petição e permitir que pessoas participem de um absurdo pode ser ir longe demais. Mesmo tendo a melhor das intenções no final. Antes de ser esclarecido, a revolta contaminou as pessoas e diversas denúncias e ameaças foram feitas. Algumas poderiam acarretar graves consequências.

Outro ponto é que mesmo depois de esclarecer a “pegadinha”, muitas pessoas continuaram incomodadas com a campanha. Com razão. Certos assuntos não devem nem ser retratados dessa forma. É como brincar com a morte, com racismo, com nazismo. Nem tudo está para brincadeira.

Muitas pessoas ainda não descobriram que se tratava de uma ação social e ainda alimentam a revolta em conversas com os amigos. É complicado desfazer um absurdo, mesmo que construído para ser destruído.

Na minha opinião, não é interessante provocar a raiva em ninguém, mesmo que você tenha a intenção de mostrar que a ideia era totalmente ao contrário. Fizeram a ação com o discurso de chamar a atenção e provocar uma conscientização. Mas afinal, será que toda a revolta da população e o constrangimento que os portadores de necessidades especiais passaram valeu a pena? Será que não seria melhor deixar de investir na “jogada de marketing”, na “reviravolta”, no “fake” e investir em atitude? A ação teve bastante mídia, mas a maioria dos comentários eram debates para dizer se a ação foi boa ou não, enquanto o objetivo principal ninguém abordou de forma profunda e eficaz.

Para fazer propaganda ou ações de marketing do tipo, é fundamental entender o comportamento da sociedade e o seu atual momento. A população brasileira presencia absurdos atrás de absurdos. Na política, na economia, no social e até com desastre ambiental. Não é sensato criar outro absurdo para só desmascará-lo no dia seguinte. Por mais que a intenção seja boa, em 24 horas pode-se começar uma guerra.

A forma de se fazer propaganda e marketing mudou. O público exige e merece ações mais refinadas e relevantes. Não para chamar a atenção, mas para ter atitude.

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Gabriel Dias

Redator publicitário, colunista, estrategista e consultor de marcas. Enxerga o que tem de melhor nas pessoas. Acredita no poder das relações humanas, da empatia e do sorriso. Apaixonado por Branding e por dança de salão.

5 comentários sobre “Campanha contra os deficientes é uma jogada de marketing

  1. A campanha foi genial aos olhos do público comum, que certamente é a grande maioria a ser atingida. Se um publicitário (ou um grupo deles) acha que foi “imoral” a estratégia da campanha, não pode emitir sua opinião em nome de muitos com a expressão “estamos enjoados de pegadinhas”.
    Do que estamos enjoados mesmo é de tanto mimimi de pessoas que tentam passar uma imagem própria de um ser politicamente correto.

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    Leu Reply:

    Exatamente como disse o Thalles.

    Acho que a campanha cumpriu a missão.

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    Gabriel Dias Reply:

    Olá Thalles, tudo bom? Então, não temos ainda uma métrica ou pesquisa para revelar se a grande maioria foi impactada e agora está fazendo mais do que fazia antes a respeito dos portadores de necessidades especiais. Dentro do meu ciclo de convivência, observei que os publicitários gostaram e as pessoas que não estudam nada do tipo, se sentiram ofendidas. Mas é o que eu falei, não podemos transformar nossa percepção em opinião final. Por isso coloquei uma reflexão. A minha reflexão é justamente a estratégia, independente se ela deu certo ou meio certo. Acredito que a forma como enxergamos a propaganda hoje está ficando cada vez mais ineficaz. Por mais que a ação quisesse impactar, impactou ofendendo e isso eu não acho legal. Grandes marcas estão cada vez mais trocando a propaganda por comunicação. Na minha visão, acredito que toda propaganda tem que fazer efeito. No caso dessa campanha, era nos dar um choque de realidade e fazer com que fizéssemos mais do que estávamos fazendo. Tanto em termos de pensamento quanto de atitude. E o que eu vi só foram debates se isso deu certo ou errado. Hoje, a campanha já perdeu o gás e acredito que muitas pessoas voltaram para seus pensamentos e atitudes de antes. Daí, nesse sentido, podemos questionar se o dinheiro foi bem investido. Causar uma semana de impacto ou fazer uma atitude a longo prazo e consistente, exemplo do McDonald’s com o instituto Ronald McDonald’s ou a Samsung com a campanha Hearing Hands. Essa é a reflexão. Mas respeito todas as opiniões e pontos de vista. Isso é o que nos leva a evoluir. Seu ponto de vista é super interessante. E estou ansioso para ver alguma pesquisa ou dado a respeito do resultado da campanha. Grande abraço!

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  2. Olá Gabriel. Concordo quando você diz “O público exige e merece ações mais refinadas e relevantes”. Fazer pegadinhas, ridizularizar pais, professores, homens, mulheres, loiras já não cabem mais. Precisamos incentivar, ressaltar as boas ações, valores que tornem a sociedade melhor, que contribuam para o desenvolvimento do homem.
    Continue com o trabalho de sensibilização.
    grande abraço
    Ivete

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    Gabriel Dias Reply:

    Muito obrigado Ivete. É interessante observar que essa campanha dividiu opiniões de fato. Muitos argumentos interessantes a favor e muitos interessantes contra. Acredito que a forma de se fazer propaganda está mudando. Inclusive escrevi um artigo que fala sobre a “morte da publicidade e propaganda como conhecemos”. Você pode ler aqui http://www.ideiademarketing.com.br/2015/05/14/a-morte-da-publicidade-e-propaganda-como-a-conhecemos/. Já conseguimos perceber que o comportamento de consumo mudou bastante nos últimos anos e cada vez mais a propaganda, a jogada de marketing e a pegadinha não estão sendo utilizadas, justamente porque sempre gera polêmica e ruídos. Cada vez mais as grandes marcas utilizam ações de fato, atitudes que trazem eficácia.

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