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Misture sua vida pessoal com o trabalho

Misture sua vida pessoal com o trabalho

Já escrevi por aqui um texto sobre as mudanças no pensamento das sociedades ocidentais e sua consequente influência nas relações sociais e no consumo, especialmente de moda. As mudanças em decorrências do pensamento moderno são profundas e abarcam diversas dimensões da vida social, mas elas estão constantemente em movimento, nos servindo de novos momentos.

Com o desenvolvimento do pensamento moderno, surgiu também a possibilidade do indivíduo organizar a sua vida de forma mais independente do seu grupo social. Cada vez mais se passou a ter a possibilidade de se desvencilhar de seu meio de origem. A identificação do indivíduo deixou de ser estritamente a da família ou grupo ao qual nasceu pertencendo. Sua vida deixou de estar estritamente atrelada às relações com pessoas ou instituições que seu grupo se relaciona e está submetido. O mundo moderno trouxe a possibilidade de pensar a vida para além do grupo. Trouxe a possibilidade das ideias românticas, da idealização da vida, dos planos e das relações de um jeito próprio, de planos no futuro com base em aspirações individuais. É claro que os limites continuam sendo estabelecidos socialmente, e a sociedade passará gradualmente a partir deste momento a delimitar até onde a individualidade pode ser exercida.

Passemos ao presente. Vivemos um novo momento de resinificação do pensamento e das relações sociais. Percebo que os indivíduos caminham para a libertação dos vínculos com o social, que lhes exige ainda determinadas satisfações.

Zigmunt Bauman trata sobre modernidade líquida em grande parte dos seus trabalhos, um conceito para explicar que estamos mudando nossas relações para um modelo mais volúvel, mutável. Bauman mostra como os interesses e, consequentemente, as relações são efêmeras, fluidas na atualidade.

O movimento pode se desenvolver de forma positiva ou negativa dependendo do caminho que tomar e pode proporcionar grandes mudanças nas vidas das empresas e dos seus profissionais.

O mundo profissional tradicionalmente se apresenta como aquele em que se trabalha por determinado número de horas, submetido a regras pré-definidas, sob o comando de um chefe, da vigilância e da regulação da quantidade de horas trabalhadas, da produtividade, e do horário de chegada e de saída. Ao mesmo tempo é possível perceber o progressivo desmantelamento de modelos rígidos e inegociáveis de trabalho e eles devem fazer frente aos abusos em ambientes de trabalho que ainda assistimos. Há uma parcela da população, especialmente aquela ocupada em atividades menos tradicionais, que se empenha em períodos e horários irregulares e incomuns. Percebe-se o crescimento da existência de times ou grupos de trabalho ao invés de funcionários, de grupos de trabalho sem definição clara de hierarquia em detrimento de uma estrutura rígida. Percebe-se os ambientes de trabalho onde é possível cumprir jornadas em cargas irregulares, entremeadas de pausas para descanso da mente, ou mesmo a possibilidade do home office parcial ou total. Marcas se orgulham em dar liberdades a seus profissionais. Profissionais se orgulham em trabalhar para determinada empresa e tomam as missões para si como se fossem seus donos.

É possível perceber a positiva migração para um modelo onde o “ser feliz” está substituindo o “ganhar dinheiro”. Desta forma, a posição que se ocupa pode ser uma realização de plenitude. Os planos pessoais passam a ser resolvidos em parte ali. Neste momento, alguém vai se perguntar onde inventaram que vida pessoal e profissional não se misturam. Este é o momento de uma realização depois de sacrifícios para entrada e perpetuação de um plano de estudos ou de trabalho.

Relações frouxas e volúveis estão permitindo que âmbitos da vida que são colocados tradicionalmente como opostos estejam em contato entre si, se complementando, como realização pessoal. Jovens profissionais almejam mais do que uma carreira sólida e um bom salário. Possibilidade de negociação, independência no trabalho, sentimento de conforto no ambiente, possibilidade de escolha do horário e local de trabalho são alguns itens de uma vasta lista.

Como a regras são mutáveis, mudam-se também as bases das relações e reconstroem-se novas versões das empresas, aproximando as noções de vida pessoal e social e colocando-as lado a lado como complementares. A liquidez das relações pode trabalhar a favor de novos modelos, mais atuais e em consonância com os indivíduos e as relações desta época.

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Carolina Feitoza

Cientista Social e estudante de Design de Moda. Apaixonada por antropologia, arte contemporânea e design. Interessada em comportamento, consumo e comunicação. Atua como pesquisadora de consumo.

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