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A indústria criativa e o que as pedagogias alternativas tem a ver com ela

A indústria criativa e o que as pedagogias alternativas tem a ver com ela

Há tempos venho pesquisando sobre pedagogias alternativas. Não, este não é um texto sobre pedagogia, mas para falar de processo criativo, precisamos falar de quebra de paradigmas. Mas e quando os paradigmas são pouco rígidos desde a infância?

Para além do construtivismo, existe uma série de propostas ainda pouco estudadas e conhecidas. Existem escolas construtivistas, montessorianas dentre outras correntes da Escola Nova. Existem as escolas democráticas e uma série de escolas experimentais que deveríamos conhecer. Cito três aqui: Summerhill, Escola da Ponte e Instituto Lumiar (esta última em São Paulo), mas existem muitas delas no país e no mundo.

O que me escandaliza na educação tradicional é que não existe cientificismo por trás de uma sala com alunos olhando uns para as nucas dos outros e um professor falando de um blá-blá-blá que pouco lhes interessa. Não há registros de que sentar em fila indiana ouvindo alguém que mal se conhece possa ser eficiente.

Ok, mas o que isso tem a ver com indústria criativa? Eu digo que absolutamente tudo. Posicionar uma marca, elaborar conceitos, criar propagandas, pensar estratégias nada tem a ver com pensar dentro da caixa. Este tipo de trabalho necessita de pessoas que inovem, que reinventem ideias, objetos, modos de usar que já foram batidos, e é muito difícil pensar um novo modelo que saia dos padrões pré-estabelecidos.

Quando se coloca em uma sala crianças que olham as nucas dos outros caladas enquanto devem ouvir um ser supremo detentor de conhecimento, estamos dizendo a elas que elas não tem nada de importante para nos ensinar. Todos os dias pessoas são domadas para viver e pensar dentro dos padrões que alguém lhes diz ser bom e correto. Elas não constroem sua própria autonomia, não são encorajadas a confiar em si próprias, aprendem com frequência que um só padrão está correto.

E se aprendêssemos desde pequenos a inovar? O grande trunfo da educação não tradicional é mostrar às crianças que há um mundo de oportunidade de modos de trabalhar, de objetivos e de percursos. Deixar o ser livre para pensar é partir do pressuposto de que ele é livre e que seu conhecimento merece ser escutado.

E o processo de tentar e tentar de novo? Testar um nome, logo, marca, conceito, ou tudo isso junto e ter que refazer? E brainstorm? Algo aqui parece com olhar para a nuca do companheiro?

Se pudéssemos ainda crianças escolher o momento de sermos avaliados? E se pudéssemos escolher qual matéria aprenderíamos primeiro? E se o respeito pelos colegas e pelas regras de convivência fossem desde sempre tão importantes quanto a prova de matemática ou a redação do trabalho de casa? Se aprendêssemos a trabalhar de forma colaborativa, de forma que um ensina ao outro e o professor é muito mais um observador do que um executor de tarefas e punições?

Em escolas do mundo todo há crianças estudando em séries mistas, em que alunos mais velhos e mais novos ensinam e aprendem entre si, há crianças aprendendo estritamente a partir do manuseio de materiais para depois o professor apresentar o conteúdo teórico. Há crianças escolhendo se vão aprender antes um ou outro conteúdo. Há crianças aprendendo tudo ao mesmo tempo, mas baseado em um tema central e não no conteúdo em si. Há muitas escolas destas em que o contrato de convivência do grupo é respeitado e exigido pelos próprios estudantes.
E no que isto tange a indústria criativa? Tange quando temos crianças que respeitam o outro, que não pensam que um conhecimento é mais importante do que o outro. Tange quando estas crianças aprendem que há diversos caminhos para se alcançar um objetivo, e que valores devem ser respeitados, ainda que diferentes entre si.

A indústria criativa deveria se inspirar nelas no que diz respeito à sua forma de dividir e organizar o trabalho, no que diz respeito ao olhar fora do óbvio. Torço e trabalho para realizar relações interpessoais, de trabalho ou não, mais relaxadas. Isso aumenta a produtividade e a satisfação de cada um. Torço para que um dia não sejamos mais ensinados a sonhar com carreiras de médicos, advogados e engenheiros somente. Torço para aprendermos desde cedo o valor de trabalhar de forma colaborativa, de trocar ideias, de reconhecer no outro uma fonte de trabalho e conhecimento. Torço para que um dia sejamos realmente um país inovador em todos os sentidos, e isto começa com a nossa formação e a nossa visão de mundo.

Tenho certeza que em um futuro muito próximo teremos crianças mais livres, de almas e corpos, e consequentemente, profissionais mais criativos, ousados e competentes.

O futuro da indústria criativa depende de nós, da forma como lidamos com o conhecimento, a informação e a linguagem, bem como da recusa de padrões que nos ensinam a pensar dentro de um redoma.

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Carolina Feitoza

Cientista Social e estudante de Design de Moda. Apaixonada por antropologia, arte contemporânea e design. Interessada em comportamento, consumo e comunicação. Atua como pesquisadora de consumo.

3 comentários sobre “A indústria criativa e o que as pedagogias alternativas tem a ver com ela

  1. Carolina Feitoza, bom dia!
    Ótima matéria.

    Um amigo meu está com um projeto grande voltado à educação e pedagogias alternativas.

    Recentemente terminou um documentário que reúne diferentes propostas de ensino pelo país.

    O nome é “QUANDO SINTO QUE JÁ SEI”.
    Segue o documentário a seguir:

    https://www.youtube.com/watch?v=HX6P6P3x1Qg

    Acho que vai gostar! :)

    Att,
    Matheus Leme

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    [Reply]

    Carolina Feitoza Reply:

    Oi, Matheus,

    Desculpe o tanto de atraso na resposta, mas a vida (e o trabalho) vai passando e vamos deixando passar algumas coisas.
    OBrigada pela atenção. Vou lá conferir o documentário. Já até tinha ouvido falar, mas acabei não assistindo.

    Grande abraço.

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    [Reply]

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