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Uma pedra no caminho: A herança colonial

Uma pedra no caminho: A herança colonial

Estamos trilhando uma história que não começamos, e temos em nós comportamentos que não podem ser deixados de lado no momento de evoluir, inovar e espelhar o futuro.  Não podemos cometer erros que cravem heranças tão malditas e duradouras.

Com certeza você já reclamou do “povo brasileiro”. “Ê jeitinho brasileiro, né?” Fura fila, coloca parente para trabalhar junto, estaciona em vaga de idosos, falsifica RG, enfim, quer dar uma de espertinho em diversas e diversas situações. No entanto, dentre todas essas atitudes, que você até possa ter feito um dia também, existe uma herança muito mais profunda.

O objetivo de Raízes do Brasil, dentro do leque de questões que mobilizou o debate intelectual nos anos 30, é o de tentar compreender a sociedade brasileira a partir da questão da existência ou não de um “tipo próprio de cultura”. Entretanto, antes de procurar definir este tipo, caberia investigar até que ponto ainda nos encontramos dentro dos padrões legados pela colonização ibérica, (…) único esforço bem sucedido, e em larga escala, de transplantação de uma cultura européia para uma zona tropical e subtropical (Holanda, 1936, p. 3)

Sergio Buarque de Holanda
Sérgio Buarque de Holanda

O livro Raízes do Brasil, do historiador e jornalista Sérgio Buarque de Holanda (pai do Chico), fala sobre nossa colonização e não é surpreendente ver como ainda preservamos muito de nossos colonizadores. Nossa colonização, diferente da dos Estados Unidos, por exemplo, foi do tipo ‘aventureira’. Os portugueses, segundo Sérgio, eram corajosos, mas prudentes, não saíam da costa litorânea do Brasil pela fácil comunicação com a metrópole. Além disso, eles tinham um perfil que não buscava somar à cultura que já estava aqui, mas sim impor os seus costumes. Aproveitava-se dos índios, focava na produção rural, produziam sem planejamento por querer resultados imediatos e trazia do seu país a vontade de ser nobre a qualquer custo com um espírito sentimental e impulsivo. Os espanhóis agiram diferentes, buscavam resultados melhores em longo prazo, adentraram as terras, conheceram a cultura e eram mais racionais.

“(…) a cidade que os portugueses construíram na América não é produto mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua silhueta confunde-se com a tinta da paisagem. Nenhum rigor, nenhum método, sempre este abandono característico, que se exprime bem na palavra desleixo (…)” (Holanda, 1936, p. 62)

O que foi deixado, ainda, foi um certo comodismo, uma atração pela facilidade, comportamentos impulsivos e a busca imediata de resultados, entre outros ‘instintos’ a exemplo e influência dos colonizadores.

“Divergindo nesse aspecto – da colonização espanhola – que procurava, com variados graus de intensidade, superpor sua cultura à cultura local, de forma a torná-la um prolongamento da sua -, a colonização portuguesa teve uma feição marcadamente prática, concreta e pouco espiritual. Ela foi obra do tipo aventureiro – o audacioso que segue uma ética de valorização elos esforços que tenham compensação imediata e não tem limites em sua capacidade de exploração -, em detrimento, mas não exclusão, do tipo trabalhador, que valoriza o esforço metódico e persistente rumo à compensação final, bem como a estabilidade, a paz e a segurança pessoal. Esta incapacidade de abstração, discriminação e planejamento resulta numa sociedade desorganizada, agitada apenas por pendências entre facções ou famílias.” (George Avelino Filho- http://migre.me/dCrN1)

O homem Cordial

O homem cordial, como fomos denominados é fruto da colonização, é este que age com o coração. Característica que pode ser boa pela nossa convivência, descontração, boa receptividade e afetividade. E pode também ser ruim, pois em um ambiente aonde o apelo emocional é intenso pode haver a “obediência cega”, ou pior, nossa democracia pode ser afetada por este tipo de comportamento, ao exemplo do nepotismo.

O que foi deixado, ainda, foi um certo comodismo, uma atração pela facilidade, comportamentos impulsivos e a busca imediata de resultados, entre outros ‘instintos’ a exemplo e influência dos colonizadores.

O que ficou ficou?

De Holanda não deixou de expor que essa herança colonial, da qual se embasa grandes problemas de nossa nação, está se desagregando. “Uma revolução lenta, quase imperceptível, cujo início era difícil precisar, mas que a partir de 1888, com a Abolição, assumira um rumo irreversível em direção ao fortalecimento e emancipação dos centros urbanos frente ao ruralismo anterior”. Revolução esta que ainda fazemos parte, tentando nos livrar de diversos vícios que fazemos ‘sem querer querendo’, sem refletir por ser tão comum.

Faz bem!

Este tipo de obra – Raízes do Brasil- traz conteúdos super relevantes e que nos forçam a considerar toda e qualquer simples ação.  Estamos trilhando uma história que não começamos, e temos em nós comportamentos que não podem ser deixados de lado no momento de evoluir, inovar e espelhar o futuro.  Não podemos cometer erros que cravem heranças tão malditas e duradouras.

“O estudo e compreensão da vida e morte da herança colonial podem abrir as portas a uma possibilidade de modernização que evite os caminhos clássicos do “absolutismo da razão”. (George)

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Jussara Coutinho

Jornalista com experiência em e-commerce e mídias digitais. Adora falar sobre comportamento e encontrar pessoas que discordem dela com bons argumentos.

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