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Tempo, mano velho, ainda falta quanto para você correr macio?

Tempo, mano velho, ainda falta quanto para você correr macio?

Estamos dependentes destas tecnologias e neste momento, nossa primeira instância em busca de resoluções partem de tais adventos. Parece um beco sem saída, o que nos ajuda ao mesmo tempo é nosso pior inimigo, o que devora nosso tempo e nossa vida. O que vale afinal?

Sabemos que o tempo é nosso bem mais valioso e que tudo o que acontece gira em torno dele. Mesmo o valorizando e vivendo numa corrida de conquistas contra o próprio, por que muitas vezes o tempo parece se arrastar?

Quando somos crianças, até certa idade, não pensamos no tempo. Não temos horários, obrigações ou responsabilidades. Temos o tempo livre para as nossas vontades alheias e é tudo mais calmo e mais tranquilo até que começamos a ir para a escola. Daí em diante temos hora certa para acordar, hora para estudar, hora do recreio, hora da lição, hora para estudar e dormir e assim inicia-se a longa caminhada entre as grandes convenções humanas do sistema. E então, mesmo com todas as tecnologias que poderiam otimizar nosso tempo, ele fica reduzido, passa voando e mal percebemos como nossa vida está passando.

Por quê tão depressa?

Celular. Rede Social. Email. Internet. Tudo o que foi feito para aproximar as pessoas e agilizar processos tem tomado cada vez mais nosso tempo. Estamos dependentes destas tecnologias e neste momento, nossa primeira instância em busca de resoluções partem de tais adventos. Parece um beco sem saída, o que nos ajuda ao mesmo tempo é nosso pior inimigo, o que devora nosso tempo e nossa vida. O que vale afinal?

Estamos vivendo cada vez mais solitários. O mundo está cada vez mais solitário e as pessoas mais individualistas. Cada um se preocupa com o seu, pois o mundo nos impôs esta condição. Nos preocupamos com a nossa segurança e mais do que tudo, nos preocupamos em pensar sobre nosso escopo, como diz Bauman.

Não temos tempo para ser gentis, para olhar no olho, para conversar inteiramente ou ouvir completamente alguma coisa. A era da informação está nos consumindo, estamos vivendo um momento de excessos. O excesso de tempo não, o excesso do que o tira de nós.

“É assim que ele se refere ao momento da História em que vivemos. Os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Disso resultariam, entre outras questões, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranoia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas. E cada um por si. Nossos ancestrais eram esperançosos: quando falavam de progresso, se referiam à perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. Nós estamos assustados: progresso, para nós, significa uma constante ameaça de ser chutado para fora de um carro em aceleração, afirma Bauman.” [trecho do texto de Adriana Prado sobre o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, 2010]

http://bit.ly/UOe7rM
http://bit.ly/UOe7rM

Tempos líquidos, é verdade, onde tudo é efêmero e é preciso muito foco para saber escolher entre o que deve permanecer e o que pode passar. É preciso ainda uma vontade de evoluir e utopias são necessárias para nos livrarmos desse sufoco. Anatole France afirma que sem as utopias de outras épocas, os homens ainda viveriam em cavernas, miseráveis e nus. Foram os utopistas que traçaram as linhas da primeira cidade e Bauman reforça dizendo que é necessário perseguir a utopia.  A utopia nos leva a conhecer nosso mais profundo ‘eu’ e pode nos dar confiança para seguir adiante.

E o que mais?

O sociólogo Domenico De Masi comentou no programa Roda Viva, na TV Cultura, sobre nosso mundo atual, que “é o melhor que o ser humano está vivendo até agora e que existe um excesso de tolerância”. Acredito que este seja um bom mundo diante de todos os acontecimentos históricos que temos contato e creio também, infelizmente, neste excesso de tolerância, mas, como dizem, tudo que é excessivo faz mal. Desta forma, vemos pessoas (“líderes”) disseminando ideias absurdas, sem critérios e bases, e que utiliza sua boa desenvoltura com as palavras para ditar leis entre milhares de pessoas “inocentes” que o seguem. Vemos políticos assumidamente corruptos ocupando cargos de destaque no governo. Vemos um jornalismo sensacionalista sem freios diante de tragédias e por que haveríamos de ser tolerantes com isso?

O excesso de tolerância nestes casos configura alguns dos obstáculos que não nos leva para frente. Estes obstáculos apenas nos atrasam, nos queimam e nos revoltam. São estes obstáculos que impedem a força da convivência de ideais inovadores.

E aí?

Na música Sobre o tempo, da banda Pato Fu, o primeiro verso diz: “Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda, eu sei, para você correr macio”… e esse tanto que falta é a tolerância que sobra. O tanto que falta é nossa consciência perceber que há valores além dos pré-estabelecidos. Tire um tempo para fazer coisas simples e tire um tempo para fazer coisas fora do habitual. Assim quem sabe o tempo tenha mais tempo para correr macio.

 “Eu desejo que os jovens percebam razoavelmente cedo que há tanto significado na vida quando eles conseguem adicionar isso a ela através de esforço e dedicação. Que a árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos.” [Bauman]



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Jussara Coutinho

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Jussara Coutinho

Jornalista com experiência em e-commerce e mídias digitais. Adora falar sobre comportamento e encontrar pessoas que discordem dela com bons argumentos.

2 comentários sobre “Tempo, mano velho, ainda falta quanto para você correr macio?

  1. Belo texto, realmente hoje nos sentimos culpados por nos dedicarmos ao ócio… A própria palavra ócio é vista como excesso de preguiça, procrastinação. Viva o direito ao ócio!!!

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