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Visões de mundo

Visões de mundo

Escrevo tudo isso para incentivá-los a pensar fora de suas bolhas, escrevo tudo isso para um público muito especializado de profissionais criativos e empreendedores, que antes de serem profissionais, são seres humanos, e assim sendo, buscam felicidade

Em todas as ocasiões comemorativas, enviamos votos de felicidade para os nossos familiares e amigos, pois a felicidade é o objetivo comum dos seres sencientes. Estamos sempre em busca de uma vida na qual as sensações de satisfação e equilíbrio sejam constantes, em detrimento às experiências de sofrimento e de inquietude.

No entanto, vivemos presos a um aparato que não nos permite compreender o todo. Crescemos numa sociedade específica, ímpar em seus valores, seus costumes e suas expectativas em relação aos cidadãos que dela fazem parte. Crescemos num ambiente familiar também particular, no qual aprendemos, de modo reflexo, observando e reagindo aos comportamentos de nossos pais, parentes, professores etc. Assim, construímos as primeiras ferramentas para decodificação e compreensão da realidade.

Não percebemos que a lógica do sistema financeiro não considera a felicidade como um objetivo a ser alcançado.

Essas ferramentas constroem a nossa paisagem mental em relação ao mundo. Diante disso, quando nos deparamos com outras culturas, temos dificuldade de compreendê-las, pois elas foram criadas por meio de ferramentas distintas, paisagens mentais alheias às nossas. Isso dificulta nossa compreensão em relação ao outro, por exemplo: vivemos num contexto social regulado por uma “lógica” financeira e não conseguimos compreender o contexto social e o olhar dos povos que não vivem sob esta mesma regulação. Deste modo, acreditamos que essas sociedades alheias ao sistema econômico vigente são formadas de seres miseráveis, pois não há circulação de moeda. Não percebemos que a própria circulação de moeda é uma convenção, não percebemos que em nossa sociedade controlada pela lógica financeira, metade dos alimentos produzidos é desperdiçada, jogada no lixo. Não percebemos que a lógica do sistema financeiro não considera a felicidade como um objetivo a ser alcançado. Não consideramos que a maior parte da população mundial, incluída neste sistema econômico, está em situação miséria, fome e violência, justamente porque essa população é regulada pela lógica financeira.

Valor da perspectiva histórica

Muitas vezes, nem sequer vislumbramos que o nosso sistema econômico foi construído historicamente, que é falível e que será substituído no futuro, simplesmente porque somos seres históricos. Ficamos admirados e assustados com as crises financeiras que assolam o mundo e tentamos buscar soluções. No entanto, as soluções governamentais e empresariais para a eliminação destas crises financeiras continuam sendo tomadas considerando-se apenas a “lógica” financeira. Ou seja, não saímos da antiga paisagem mental socialmente construída, não cogitamos buscar soluções fora desta lógica. Não cogitamos buscar soluções por meio de ferramentas diferentes para criar uma paisagem nova, que possa ter como base a felicidade. A “lógica” financeira não tem como objetivo respeitar valores humanos, a lógica financeira é baseada apenas em números, estatísticas, lucro. Não há espaço, nesta lógica, ou podemos dizer, neste tipo de jogo, para buscarmos a felicidade, a preservação ambiental e a compaixão pelo próximo.

Essa é a nossa ignorância básica, não temos instrumentos para perceber a totalidade. A realidade de um povo ou de um ser é distinta da realidade de outro povo e outro ser. Nos dias atuais, precisamos nos recordar de que temos esta visão limitada das coisas, só deste modo, teremos o mínimo de abertura e humildade em relação ao outro e a nós mesmos para vislumbrarmos alternativas fora de nossa velha “bolha” de significados.

As crises no sistema econômico que causam sofrimentos aos seres humanos e ao meio ambiente só podem ser resolvidas se pensarmos em construir novos sistemas. Sistemas que tenham como objetivo principal a felicidade.

Quando temos como critério de sucesso a busca da felicidade, torna-se possível considerar o ato de trazer benefícios aos outros uma meta de vida, pois a felicidade só é plena quando podemos vê-la no próximo e em nós mesmos. Se, como diz o Dalai Lama, a felicidade é o objetivo comum que unem os seres sencientes, por que não criar um mundo no qual esse objetivo possa ser alcançado? Por que não incluir em todas as nossas organizações uma cultura de paz?

Temos de superar as velhas paisagens mentais que causam sofrimento, guerra, fome e miséria. Temos de superar nossa ignorância em relação ao outro e em relação a nós mesmos. A ignorância leva invariavelmente à violência e à dor. Pois quando estamos presos em nossas paisagens mentais, buscamos protegê-las a qualquer custo, não conseguimos contemplar e compreender outras paisagens mentais. Quando nos prendemos em nossas bolhas de significados, nos condenamos a perder o aspecto de liberdade e criatividade que temos por natureza, nos tornamos simples peças de um jogo arbitrário, que vai contra o objetivo comum dos seres humanos, a felicidade. Assim, nos alienamos, e a vida se torna vazia de sentido.

***

Escrevo tudo isso para incentivá-los a pensar fora de suas bolhas, escrevo tudo isso para um público muito especializado de profissionais criativos e empreendedores, que antes de serem profissionais, são seres humanos, e assim sendo, buscam felicidade. Portanto, se você, leitor, for um desses seres humanos em busca de felicidade, junte-se a nós na construção de bolhas novas. Junte-se a nós na criação de novas paisagens mentais, na criação de novos modelos de trabalho e de negócios. Junte-se ao grupo de mentes curiosas e cheias de ideias felizes por uma cultura de generosidade e paz.

Encerro este artigo com agradecimentos às pessoas que constroem mundos nos quais a generosidade, o amor e a felicidade são as metas. Agradeço o Lama Padma Samten, que vem ampliando as minhas paisagens mentais por meio de seus livros e ensinamentos.

E dedico este texto a Aaron Swartz (1986-2013), que cometeu suicídio no último dia 11 de janeiro, vítima de um sistema judiciário totalmente escravo da bolha econômica, uma bolha incapaz de compreender a paisagem mental visionária deste jovem gênio que ajudou a criar conceitos como copyleft, creative commons e desenvolveu códigos para RSS e as bases técnicas para o desenvolvimento de redes sociais, como o FriendFeed (que inspirou e depois foi comprada pelo Facebook), além de ter sido o co-fundador do Reedit.

Obrigada pela leitura! Espero poder dialogar com você, ser senciente, que vive do outro lado da tela. =)

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Tereza Kikuchi

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Tereza Kikuchi

Empresária e designer. Em 2004 montou a empresa de produção editorial, Estúdio Bogari, juntamente com Marcelo Cordeiro. Neste mesmo ano, publica, como organizadora, a obra "José Mindlin, Editor" pela Edusp. Formada em Editoração pela ECA-USP, em 2011 foi selecionada para participar do Curso de Formación para Editores Latinoamericanos, pela Fundación Carolina e Universidad Complutense de Madrid, Espanha. Acredita que é possível construir uma indústria criativa justa e eficiente, por meio da liberdade de expressão, da livre e gratuita circulação do saber e da colaboração entre os diversos profissionais da área.

2 comentários sobre “Visões de mundo

  1. Algumas considerações.

    Não estou convencido de que as pessoas buscam felicidade. A felicidade normalmente é alcançada quando você busca um objetivo (seja qual for) e o alcança. Pelo menos é isso que as pessoas normalmente pensam, mas tem gente que consegue e não se sente feliz mesmo assim.

    Então existe a expectativa de encontrar a felicidade em alguma coisa. Para alguns é o dinheiro do sistema financeiro citado no texto, para outros é a renúncia desses sistema de valores, e para outros não existe relação entre uma coisa e a outra.

    Existe também a questão de pessoas que foram citadas que podem viver na miséria e que se sentem felizes porque se casaram com quem queriam ou porque simplesmente tem acesso a algum entretenimento que gostam muito.

    Logo é simples perceber que felicidade é algo tão subjetivo, que fica dificílimo construir um argumento tendo por base algum tipo de consenso a ser respeito.

    Agora uma coisa precisa ser dita: “O homem existe antes do dinheiro”

    Sendo isso um fato, não podemos atrelar nossos valores, comportamentos e tampouco pautar nossa noção de realidade em finanças.

    A pior coisa da sociedade é padronizar o bom e o ruim, o bonito e o feio, o chato e o legal…

    Porque simplesmente não nos deixam decidir o que pra nós é bom, bonito e legal?

    Então só consigo concluir que não é pelo dinheiro e sim pelo PODER… Ou de forma mais direta, CONTROLE…

    Controlando nossa forma de “decodificar a realidade”, como foi dito no texto, faz parecer que nós chegamos a uma conclusão por nós mesmos, quando na verdade fomos induzidos a ela.

    Isso ocorre desde nossos primeiros no sistema de educacional, que nos ensina a como interpretar o mundo.

    Por isso alguns valores são postos como absolutos, e outros extremamente relativizados.

    Então ainda citando o texto “sair de nossas bolhas” é a solução geral, e conseguir conscientemente não tentar interferir nas escolhas dos outros.

    Por mais que esse sistema se diga livre, ainda existem passos a serem dados para que realmente tenhamos liberdade, de expressão, pensamento e atitudes, e que as pessoas não se permitam mais iludir e nem controlar em nenhum nível.

    Para mim pagar um preço de perder a “felicidade” pela liberdade valeria muito, para nós e para gerações futuras.

    0

    [Reply]

    Tereza Kikuchi Reply:

    Olá, Hiper4tivo!!!

    :-)

    Vc tem razão quando diz que podemos chamar de “Felicidade” coisas muito distintas. Cada ser tem sua bolha particular de significados e, por este motivo, nomeia a realização de seus objetivos particulares como sendo a realização da felicidade.

    Usando o seu exemplo, é verdade que uma moça poderia dizer que sua felicidade está em se casar com o rapaz por quem se apaixonou, no entanto, é possível que, um dia, essa paixão mude, se transforme em outro sentimento, às vezes e não raro, um sentimento contrário à paixão inicial. Tão logo isso ocorra, aquilo que ela chamava de felicidade deixa de ser assim nomeado, passando a ter outra designação.

    O que penso ser comum para todos os seres sencientes e que no texto chamo de felicidade seria algo mais sutil, um estado de espírito constante de plenitude, contentamento e equilíbrio físico, mental e espiritual. Este estado de espírito, este equilíbrio sutil é a busca de todo indivíduo, estamos sempre em busca de um estado contínuo de satisfação.

    Ocorre que costumamos identificar esse estado contínuo de satisfação (a felicidade) em coisas muito particulares, que dizem respeito apenas para o indivíduo que a desejou. Penso que poderíamos identificar esse estado contínuo de satisfação de uma forma mais ampla, considerando o bem-estar da comunidade como objetivo.

    Isso ocorreria se houvesse uma mudança na nossa motivação interna. Ao invés de pensarmos como seres competitivos, que buscam dominar outros seres, poderíamos pensar em termos de seres colaborativos, que buscar gerar benefícios para os outros. Esse tipo de mudança interna sim, poderia gerar uma sociedade mais feliz, capaz de ultrapassar a bolha de realidade dominada pela lógica financeira e autocentrada.

    Existe uma fábula muito bonita que pode ilustrar a ideia acima e vou compartilhá-la com vc:

    Havia dois mundos, o mundo dos deuses e o mundo dos infernos. Nestes dois mundos, os seres eram dotados de braços, mas não tinham cotovelos, de modo que as mãos nunca alcançavam seus próprios rostos. Nos dois mundos, havia uma mesa repleta de alimentos deliciosos à disposição dos seres.

    No mundo dos deuses, cada ser utilizava seu braço e mãos para alimentar o outro ser. E assim viviam em grande alegria, agradecendo com os seguintes dizeres: “a vida é felicidade, alimento um ser e outros muitos vem me alimentar!”

    No mundo dos infernos, todos estavam passando fome e vivendo em dificuldade. Assim eles se lamentavam: “a vida é um sofrimento, existe uma mesa farta de alimentos e não tenho condições de me alimentar”.

    Metaforicamente, podemos dizer que vivemos hoje no mundo dos infernos, cada um buscando sua própria satisfação, mas sem perceber que essa satisfação nunca será plena, pois está autocentrada, justificada logicamente por um sistema que não se baseia na busca da felicidade, mas sim, apenas na busca do lucro, do individualismo. Acreditamos que estamos destacados da Natureza e não que fazemos parte dela. Temos uma visão estreita e somos tomados por uma avalanche de estímulos e obrigações que nos rouba um tempo precioso de reflexão sobre questões existenciais, como “o que é felicidade?”

    Será que a liberdade sem felicidade não seria ela própria uma espécie de prisão?

    Fica a questão, gratidão, Hiper, vamos dialogar mais. :-)

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    [Reply]

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