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Uma história de sabedoria e generosidade

Uma história de sabedoria e generosidade

Se existe algo muito positivo nas comemorações de Ano Novo, esse algo positivo é a renovação das esperanças por um mundo melhor. Criam-se inúmeros ritos de passagem, reúne-se a família e os amigos para celebrar e trocar desejos de felicidade plena.

Mas o que é felicidade plena?

  • Será que estar gargalhando ou sorrindo é ser plenamente feliz?
  • Será que basta você e sua família terem uma casa protegida, terem acesso à saúde e à educação privadas de qualidade para conquistar esse tão desejado estado de espírito?
  • Será que possuir muito dinheiro no banco, imóveis caríssimos ou carros do ano é sinônimo de ter felicidade?

Por incrível que pareça, não basta ter sucesso, dinheiro e a suposta segurança para sermos felizes. Porque a felicidade não tem relação direta com as coisas que possuímos, nem tem ligação com o fato de sorrirmos, gargalharmos ou estarmos alegres. Rimos de piadas, fazemos piadas, e nem por isso podemos dizer com certeza: “estou feliz”.  Podemos controlar nossos estados de humor, comprando e tomando fortunas de remédios, pagando médicos caros para enfrentarmos os estresses do dia a dia, mas não somos felizes, por quê?

Colaboração, generosidade e um mundo mais feliz. Que este sonho se torne real muito em breve. Foto de D. Sharon Pruitt, sob licença creative commons

Então, você pode me dizer: “Oras, a felicidade plena é impossível”.

Não, o que acontece é que ela não é possível numa sociedade puramente materialista, desigual, injusta e vigiada. Pois viver num mundo alicerçado na valorização do objeto em detrimento ao sujeito, é estressante, para dizer pouco. Podemos ter a sorte de crescer numa família bem estruturada, ter acesso à alimentação farta, educação e saúde, e ainda podemos nos tornar profissionais respeitados, bem-sucedidos e ter uma remuneração alta pelo trabalho realizado, mas nem isso é garantia de felicidade. Justamente porque vivemos numa sociedade baseada no desejo de posse. E isso é insaciável e ao mesmo tempo frustrante.

“E como alcançar a tão sonhada felicidade plena?”

Construindo uma nova realidade, uma nova sociedade. Vivemos no tempo e no espaço, e estamos em constante transformação, inclusive alterando o nosso entorno. Somos os agentes da História. O mundo não é o mesmo desde sempre. Ele foi e será transformado ainda mais: se para melhor ou para pior, depende de cada um de nós. Porque não basta você, sua família, seus amigos ou eu estarmos bem, enquanto outras milhares de pessoas sofrem sem ter alimentos, sem ter um lar, sem ter acesso à saúde e à educação pública de qualidade, sem ter acesso à Internet Livre (este canal de compartilhamento de ideias e sonhos é fundamental para a construção de um mundo novo).

Veja bem, se existir alguém em situação de risco, miséria, censura e maus tratos, meu amigo, você e eu também estaremos em situação de risco. Seja porque é estressante viver num mundo repleto de  injustiça social, seja porque há sempre o perigo de logo, logo, sem aviso prévio, não conseguirmos mais pagar o nosso médico particular ou a nossa escola particular, ou a prestação do nosso carro ou da nossa casa, isso porque o mercado é traiçoeiro.

Após essa digressão sobre a felicidade, vou contar-lhes a história de um sábio, para que os seus sonhos de um mundo melhor se renovem e se fortaleçam.

Trata-se da história de Tim Berners-Lee. Você sabe quem é ele?

Ele é simplesmente o criador da Internet como a conhecemos hoje. Nascido em Londres, em 1955, aos vinte e um anos de idade formava-se em primeiro lugar, em Física, na The Queen’s College, Universidade de Oxford, onde estudou de 1973 a 1976. Em 1984, começou a pesquisar formas para facilitar o compartilhamento de informações entre diferentes pesquisadores, em diferentes partes do mundo, ligados de alguma forma à Organização Europeia para Pesquisa Nuclear – CERN, onde ele estava empregado. Seu projeto consistia em criar um ambiente de troca e compartilhamento de dados; um espaço colaborativo; livre e neutro. E no dia 6 de agosto de 1991, ele apresentou ao mundo o primeiro web site da história. E o mais importante, Tim Berners-Lee cedeu sua invenção ao mundo sem cobrar royalties, a WEB é de domínio público! Ele poderia ser bilionário, mas se sua criação não fosse livre, com certeza não teríamos a Internet como ela é hoje. Segundo suas próprias palavras:

“Quando criei a web, queria incentivar a interconectividade criativa, para que pessoas de todo o mundo pudessem construir algo juntas. O objetivo é criar uma espécie de meta-cérebro – fazer com que vários cérebros conectados funcionem como um grande cérebro humano. Para isso, nós temos que confiar na humanidade. Eu acredito que a natureza humana, quando em equilíbrio, é maravilhosa. Se usarmos a web adequadamente, podemos intensificar isso.” [In: John Naish, “O pai da www”, New Statesman, Londres. Tradução de Carolina de Assis, para a Revista Samuel, São Paulo, Dez. 2011, n. 1, p. 53.]

Legenda: Tim Berners-Lee no Campus Party Brasil, 18/01/2011. Foto de Cristiano Sant’Anna/Indicefoto.com. Sob licença creative commons.

Hoje, Tim Berners-Lee é um dos maiores defensores da Internet Livre no Mundo. E está trabalhando no projeto para criar uma Internet que conecte dados brutos livres sobre todo e qualquer tema, seja os dados dos governos, aos dados relacionados às empresas, ou pesquisas científicas, ou mesmo os dados postados por usuários, todos como conteúdo livre para que possam ser relacionados e compartilhados, a fim de facilitar o desenvolvimento científico, a criação de soluções para problemas sociais e econômicos e trazer o poder de fato às mãos dos usuários da Internet que terão finalmente o acesso às informações com cruzamentos de dados para comparar por exemplo como é gasto o dinheiro público pelos governos.

Achou interessante? Deixarei abaixo dois vídeos em que Tim Berners-Lee expõe suas ideias. E, para quem não domina o idioma inglês, não se preocupe, os vídeos são legendados, basta escolher seu idioma de preferência. Para acessar diretamente a página do TED, ir para: http://www.ted.com/speakers/tim_berners_lee.html


Este cientista, que hoje mora em Cambridge e desenvolve pesquisas no Massachusetts Institute of Tecnologie, optou por manter sua criação como domínio público, pois acredita que é possível construir uma sociedade justa, igualitária, democrática e livre. Ele defende a neutralidade comercial da rede, luta para que a Internet não seja o espaço controlado por grandes corporações, luta pela democracia na WEB. Luta contra os legisladores estadunidenses e de outros países que vêm realizando manobras para criminalizar os sites e os usuários que compartilharem dados ou conteúdos protegidos pela lei de direito autoral.

Quando grandes corporações fecham os padrões dos arquivos para forçar a fidelização do cliente tornando o conteúdo incompatível para outras plataformas, ou quando utiliza dados pessoais dos seus usuários e os comercializa para empresas de pesquisa de opinião e publicidade, ou até mesmo para os Governos, quando edita as informações que chegam aos leitores por meio de filtros de pesquisa, a fim de manipular o que se lê ou não, ou quando artistas, autores e programadores colocam suas criações sob a gaiola do direito autoral, institui-se a CENSURA na Internet, simplesmente porque não há compartilhamento de ideias, conhecimento e liberdade criativa, se tudo estiver fechado. E, com tanta proteção, censura e criminalização do usuário, todo o caráter democrático da WEB cai por terra. Pasmem: “[…] apenas um pequeno número de nações, como Mongólia e Madagascar, tem uma web completamente aberta.” [Op. Cit. p. 53]. As demais são ou moderada ou totalmente censuradas!

Será que não existe uma possibilidade para permitir que todo o conteúdo produzido seja livremente difundido e compartilhado? E ao mesmo tempo que a sociedade se torne mais igualitária, justa e feliz? Será que os bilhões de dólares que vão para as grandes corporações não estariam em melhores mãos se fossem revertidos para aqueles que realmente trabalham na criação e no desenvolvimento dos produtos culturais ou softwares? Será que a economia não seria mais saudável e ecologicamente correta se fosse horizontalizada, democrática, como a Internet quer ser? Se pensar sobre essas questões e buscar soluções para estes problemas não for buscar a felicidade, eu não sei o que poderia ser.

Espero que assim como eu, você também pense sobre estes assuntos, pense sobre que tipo de Internet vai querer, pense sobre a sociedade na qual quer viver, pense no futuro que deseja para os seus filhos e netos. Pense em quão feliz seria uma sociedade em comunhão e equilíbrio.

Muita sabedoria em 2012 para todos nós! Até a próxima quinzena.

 

Referências Bibliográfica e links recomendados:

Revista Samuel: o melhor da imprensa independente no Brasil e no Mundo, São Paulo, dez. 2011, n. 1. pp. 50-53. Leitura mais do que recomendada, revista à venda nas melhores bancas.

http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=long-live-the-web Artigo assinado por Tim Berners-Lee, sobre os princípios da Internet e como mantê-la livre, democrática e favorável para o desenvolvimento criativo e colaborativo do conhecimento humano.

http://www.w3.org/People/Berners-Lee/ Breve biografia de Tim Berners-Lee

http://www.estudar.org/pessoa/internet/02www/people-tim_berners_lee.html Texto sobre como surgiu a WEB e quem foi Tim Berners-Lee

http://www.w3.org/People/Berners-Lee/Kids.html – Tim Berners-Lee responde às perguntas mais frequentes feitas a ele por crianças de todas as idades.

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Tereza Kikuchi

Empresária e designer. Em 2004 montou a empresa de produção editorial, Estúdio Bogari, juntamente com Marcelo Cordeiro. Neste mesmo ano, publica, como organizadora, a obra "José Mindlin, Editor" pela Edusp. Formada em Editoração pela ECA-USP, em 2011 foi selecionada para participar do Curso de Formación para Editores Latinoamericanos, pela Fundación Carolina e Universidad Complutense de Madrid, Espanha. Acredita que é possível construir uma indústria criativa justa e eficiente, por meio da liberdade de expressão, da livre e gratuita circulação do saber e da colaboração entre os diversos profissionais da área.

4 comentários sobre “Uma história de sabedoria e generosidade

  1. É um convite à reflexão, ao posicionamento e à ação num cenário sócio-político-econômico que não é tão novo mas que se articula e se impõe com maestria e perversidade a todo instante. O que há de comum entre as comemorações de final de ano, Tim Berners-Lee e o sonho da internet livre? Muito bom!

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  2. Sônia, muito obrigada pelo comentário!

    Estamos num momento propício a transformações. Por que não aproveitarmos este momento para pensarmos numa nova configuração da sociedade? Muitas boas ideias estão surgindo, quem sabe possamos brindar, todos juntos, os futuros anos com a sensação feliz de termos realizado um salto de qualidade para humanidade.

    A Internet é o começo.

    Beijo grande,
    Tereza

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  3. Interessante essa linha de pensamento que levanta questionamentos sobre o que é felicidade (será que precisa existir felicidade plena?), conceito de compartilhamento etc. A internet é um tremendo canal para concretizarmos essas idéias e desejos mas para isso acontecer há muito que se debater e amadurecer :)

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  4. Kátia,

    Obrigada por escrever! Com certeza precisamos amadurecer muito todas essas ideias e temos de ficar atentos para tudo o que diz respeito à Internet. Que tipo de Internet vamos querer?
    A felicidade é muito relativa, mas com certeza não pode ser conquistada pelo simples consumo de bens ou serviços. Não pode ser vivida numa sociedade em que o objeto é mais importante que o sujeito. Essa é uma premissa básica. Espero que possamos mudar essa realidade a partir do diálogo que é possível realizar por meio da Internet. Neste espaço aqui!
    Que 2012 seja o começo de uma era de felicidade para todos.

    Beijo enorme,
    Tetê

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