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Morra um pouco

Morra um pouco

Há algum tempo tenho observado mais as coisas, as pessoas, e seus comportamentos. Talvez, seja bom que notemos também que apesar do stress, da correria do dia-a-dia, das dúvidas e das dívidas, as pessoas parecem estar passando por um processo de interiorização, de auto-observação. Pelo menos ao meu redor. Quando decidimos pela reforma começa uma varredura interna, onde nos questionamos mais do que nos apoiamos, mas ainda sim, começamos a sentir os primeiros sinais da mudança, que se bem acolhida, ali na frente será nosso amadurecimento.

Vou dividir com você um fato que me ocorreu há alguns dias. Acordei e desci para tomar um café com a minha avó, a cozinha de casa tem saída para o quintal, e é meu costume ao acordar sair e olhar o céu. Nesta manhã atípica, saí e bati o olho no chão. Havia um passarinho caído, esforçando-se num frenético bater de asas, ainda que em vão. Aquilo me tocou de uma tal forma que mesmo com a minha fobia (pode rir, tenho medo de pena!) eu queria segurá-lo, cuidá-lo, enfim, fazer algo para cessar sua dor. Nestes momentos as ideias mais absurdas passam pela nossa cabeça, são situações tão simples que nos tocam, não é mesmo? Peguei a caixinha de dipirona, pinguei na água uma gota e coloquei uma pitada de açúcar. Minha avó ria enquanto segurava o pobre passarinho, que piava sua dor, enquanto com uma seringa pude dar-lhe o remédio, no ápice de meu exercício veterinário mirabolante. O bichinho dormiu tranquilamente por longas horas, respirava um pouco mais aliviado, e esta constatação me trouxe uma satisfação imensa, como se o poder de curar fosse um dom nato que eu não havia percebido, dilatava-me de orgulho como se eu fosse uma curandeira experiente. No dia seguinte, ele estava lá, novamente lutando contra sua dor, tentando voar, tentando vencer. Talvez o remédio tenha sido eficaz, mas não eficiente, pois sabemos que ser eficaz é resolver o problema na hora, mas ser eficiente é não só resolver, mas também solucionar de vez. Era visível seu cansaço, e ele logo, percebeu, era hora do grande voo, dormiu naquele cantinho, e não acordou mais.

Fiquei pensando horas nesta breve história observada. Fiz ligações com nossos esforços, por hora profissional. Quantas vezes caímos, e nos esforçamos em levantar, em seguir em frente. Quantas vezes, aquelas pessoas das quais jamais imaginamos, são as nossas “curandeiras”, nos oferecem o remédio, doses de orientação, para que no mínimo possamos nos tranquilizar um pouco, parar e refletir. Quantas vezes, apesar do nosso esforço em querer voar, o melhor é permanecer quieto, paciente, para que depois de uma breve pausa, possamos seguir mais confiantes em nosso caminho, e assim, eficientemente, nos resolver. E quantas vezes, morrer é difícil, e começar algo novo parece uma tortura, apesar da nossa absoluta certeza de ser a nossa melhor saída?

Assim como na natureza, nossa vida segue pequenos roteiros inusitados, onde não sabemos quando o que queremos é mais essencial do que o que precisamos viver. Como um pássaro com as asas machucadas, em nossos desafios profissionais e pessoais, temos de encarar nossas limitações sem abandonar a luta. Observar pode ser um convite à mudança que por nossas contínuas agitações, talvez nos passem despercebidas. E até mesmo o fim, pode ser um bom recomeço, dependendo da forma como você aceitar vivê-lo!

Disso tudo eu fiquei apenas com uma certeza, insista em viver, mas confie no seu destino, quando as asas não suportarem mais voar, reconheça seu esforço e permita-se morrer um pouco. “Morrer” meu amigo, pode ser apenas o começo.

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Juliana da Matta

Um comentário em “Morra um pouco

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