Menos tech (e não mais tech) e outras previsões para este ano

É a lista das principais tendências das principais listas. Contextualizadas com os acontecimentos dos mercados nacional e internacional. Com exemplos e referências.

AS FONTES

Selecionamos 11 das empresas que se dedicaram a explorar tendências de tecnologia, comportamento e inovação em 2018, seja através de pesquisas com consumidores ou opiniões de especialistas.

UM RESUMO

Esse ano as tendências não foram dominadas por grandes tecnologias como ‘internet das coisas’, ‘big data’ ou ‘inteligência artificial’. Esses tópicos já foram assunto em listas dos últimos anos, e o que se discute 2019 são as suas aplicações e implicações.

São previsões mais voltadas ao uso dessas tecnologias nos últimos tempos, suas consequências e o que elas inspiram nas pessoas.

A necessidade de um detox digital, por exemplo, apareceu em diversas listas, motivada pela ansiedade que smartphones e seus aplicativos causam — o que inclusive já começou a ser enfrentado em 2018 por empresas como Apple e Google. A previsão é que o “menos” se tornará a norma, o que irá impactar desde design de produtos a modelos de negócios.

Negócios que, por sua vez, precisarão adotar uma política de dados mais clara e uma relação mais transparente com as pessoas, já que, depois de um 2018 marcado pelo GDPR e por diversos escândalos de privacidade envolvendo o Facebook, a desconfiança das pessoas em relação a tecnologia é um desafio para todas as empresas.

Apesar disso, nós seguimos dependendo cada vez mais de aplicativos, pelos quais as pessoas metrificam suas vidas e sua evolução das mais diversas formas — desde checklists diários até metas de passos a atingir em um dia. Mas é inegável que essa relação precisa evoluir.

Mesmo enquanto buscam mais modernidade no dia a dia, as pessoas se voltam também ao conforto das suas raízes, muitas vezes representadas por produtos e pessoas que fizeram parte de um período da sua vida. Segundo diversas previsões, a volta dos anos 90 e 2000 será cada vez maior em 2019. E essa busca pelo familiar e nostálgico pode ser uma oportunidade para as marcas.

Para além do indivíduo, as tendências com impacto coletivo envolvem o planeta e as cidades. Depois de 2018, canudos jamais serão os mesmos. Para os próximos tempos esse olhar deve se estender não só a outros tipos de plástico, mas a todo tipo de produto. Inclusive, o sucesso de Marie Kondo não deixa dúvidas de que repensar a quantidade de coisas que acumulamos está na moda.

E, por fim, os patinetes e bicicletas que dominaram São Paulo e Rio de Janeiro e se espalham rapidamente pelo país são só o começo de uma revolução na mobilidade. Essa mistura de tecnologia e comportamento tem tudo para melhorar o dia a dia de muita gente. Mas a falta de regulação e a competição acirrada têm o potencial de causar acidentes e transtornos para todos os envolvidos.

Esses e mais alguns tópicos que dominaram as principais listas de tendências nesse início de ano você confere a seguir, em detalhes.

AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS PARA 2019

  1. Detox Digital
  2. Menos plástico e menos coisas
  3. #throwback
  4. A evolução do transporte
  5. Metrificando a vida
  6. Tecnologia transparente

1. DETOX DIGITAL

Onde apareceu: FastCompany, Ford, UX Collective, FJORD

“As pessoas querem produtos e serviços que atendam suas necessidades enquanto respeitam o seu tempo.”

Motivação

Após dez anos de convivência com smartphones, é difícil ignorar os impactos negativos que eles têm causado no nosso comportamento e saúde. Do vício em jogos à ansiedade e à depressão agravadas por redes sociais, é unânime que precisamos de uma relação mais saudável e consciente com a tecnologia.

O “fear of missing out” (FOMO) começa a dar lugar ao “joy of missing out” (JOMO). A satisfação não será saber de tudo o tempo todo, e sim passar o máximo de tempo possível desconectado — e feliz com isso.

Significado

Menos notificações. Menos aplicativos. Menos mensagens. Menos. Menos. Menos. Desconectar, cancelar assinatura e denunciar spam não são mais simples escolhas do dia a dia, e sim questões de saúde mental. E conforme mais pessoas vão diminuindo seu tempo e atenção, as empresas precisam descobrir qual o valor real que oferecem — para além de todo o barulho.

Estamos saindo de uma era em que o objetivo de todo produto ou serviço é o vício. Quanto mais tempo, mais conteúdo, mais anúncios, mais rentabilidade, mais novidades…e assim vai o ciclo. Mas uma vez que ele se rompe, o que sobra?

Como acontece na prática

Nós aprendemos e ensinamos a construir para o vício, sempre pensando em maneiras de trazer as pessoas de volta para mais. Com comportamentos digitais mais saudáveis em mente, é preciso oferecer valor real para que as pessoas continuem voltando.

“Ao invés de brigar por atenção, os produtos devem mirar em relevância e conforto. Os KPIs vão mudar de métricas baseadas em engajamento, para métricas baseadas em afinidade.” (UX Collective)

Ou seja, não é mais sobre construir produtos e manipular as pessoas a utilizá-los. Daqui para frente, é preciso pensar no que aquelas pessoas gostariam e entregar experiência e valor suficientes para que elas sigam utilizando e recomendando.

Esse movimento em direção a menos tempo nos devices incentivará também modelos de negócios que não são baseados em disputar a nossa atenção. Alguns exemplos já existem hoje, como serviços por assinatura, e há muito mais por vir conforme as empresas se alinham com a necessidade das pessoas de estar no controle dos seus dados e do seu tempo.

Cases

  • Android P, apresentado ano passado, e as suas funcionalidades ‘anti vício’;
  • Instagram e a feature de “você já viu tudo”, que incentiva as pessoas a pararem de scrollar;
  • Esse manifesto do Google sobre “digital wellbeing” e como ele está presente nos seus principais produtos.

2. MENOS PLÁSTICO, MENOS COISAS

ONDE APARECEU: FastCompany, GlobalWebIndex, FJORD

“Nossa preocupação com aquecimento global, poluição e sustentabilidade tem passado por uma mudança cultural. O que uma vez era ‘grande demais para fazer qualquer coisa’, agora ficou pessoal.”

Motivação

Em 2018, nossa consciência ambiental foi do coletivo para o individual rapidamente. O protagonista dessa reviravolta? O canudo plástico.

Foi um movimento que começou pelas tartarugas marinhas sufocadas por pedaços pequenos de plástico e rapidamente atingiu algumas das maiores multinacionais e governos do mundo. Hoje, ele nos convida a repensar, a partir de algo simples como canudos, todo o nosso consumo individual de plástico. E num passo além, o nosso consumo individual de tudo.

Significado

Em 2019, as empresas não poderão somente reconhecer preocupações ambientais. As pessoas estão esperando comprometimento através de ações.

O excesso de embalagens, o estímulo ao consumo excessivo, o desconhecimento sobre o processo de produção e reutilização de produtos, o acúmulo de coisas nos ambientes da casa… Esses e outros aspectos do consumo que se tornaram hábitos, estão rapidamente virando absurdos.

Organizações terão que repensar seus sistemas e modelos de negócios para se encaixarem na “economia circular”, onde usuários são participantes ativos, e a sustentabilidade está em todos os produtos e serviços.

Como acontece na prática

“Os consumidores concordam que precisam mudar seu comportamento para ter avanços ambientais, mas muitos ainda buscam conselhos em como reduzir o seu impacto”. E é geralmente às marcas que eles tendem a recorrer no momento de reduzir o peso na consciência das suas escolhas.

Surge aqui a oportunidade de repensar desde a composição de um produto até a sua embalagem, e nesse trajeto educar o consumidor para que ele faça melhores escolhas — para si mesmo e todo o planeta. É um convite à reflexão que nem todas as marcas aceitarão, mas as que aceitarem terão vantagem sobre seus concorrentes diretos na prateleira.

De forma geral, a obsolescência programada e falta de qualidade em troca de preços baixos vão se tornando práticas ultrapassadas. Em seu lugar, estão produtos com maior longevidade, versatilidade e funcionalidade. Produtos capazes de durar, símbolos de um estilo de vida em que compraremos menos, mesmo que gastando um pouco mais.

Nós veremos também maior ênfase em logística reversa, reparos, manutenção, aproveitamento de peças e o uso de alternativas sustentáveis a materiais e métodos de produção. Tudo isso incentivado por novas legislações mundo afora, por marcas liderando esse novo momento, mas principalmente por pessoas cada vez mais conscientes do seu papel individual no coletivo do nosso planeta.

Cases:

  • McDonald’s baniu os canudos das suas lojas (esse link se refere ao Reino Unido, mas em São Paulo já não tem mais também);
  • Adidas e o compromisso de usar somente plástico reutilizado até 2024;
  • iPhone Xs que já é feito de diversos componentes reciclados.

3. #THROWBACK

ONDE APARECEU: FastCompany, Non-Obvious

“Ao olhar para as pessoas adotando video games e brinquedos retrô, novas versões de séries e filmes, ou produtos artesanais, fica claro que estamos nos voltando para produtos com história — ou com os quais nós temos uma história.”

Motivação

A partir de 2019, quem nasceu até 1999 terá 20 anos ou mais. Ou seja, não temos mais nenhuma criança nascida no século XX.

Agora adultos, a geração que foi criança nos anos 90 e 2000 traz consigo a nostalgia por tempos menos digitais, pelos seus ídolos da época e pelas marcas que fizeram parte da sua infância. Com mais independência, fácil acesso e budget maior.

Além disso, em meio ao caos do bombardeio diário de infinitas opções, cada vez mais parecidas umas com as outras, o familiar traz cada vez mais conforto e confiança.

Significado

A incerteza de quem confiar tem levado consumidores a se voltar a organizações e experiências com marcas que possuem um legado, ou aquelas com quem eles têm uma história.

Nós sentimos maior segurança no passado. A nostalgia está crescendo porque confiar em produtos que reconhecemos, ou com os quais temos experiências anteriores, nos ajuda a tomar decisões sobre o que prestar atenção ou o que comprar.

Como acontece na prática

Fontes serifadas e simplificadas, imagens de jovens usando fones de ouvido em uma rua movimentada, cores suaves e uma comunicação mais leve. Em algum ponto nos últimos anos, adotar essa fórmula moderna, digital e futurista deixou todas as marcas meio parecidas.

A solução mais imediata para chamar atenção e se conectar com as pessoas tem sido dar um passo atrás e apelar para a nostalgia: seja na estética pré-mobile — menos flat e mais rica em detalhes, na modernização de produtos conhecidos ou no comeback de diversos aspectos da cultura pop.

Cases

Exemplos não faltam, e permeiam todos os tipos de público. A Disney pretende levar milhões de adultos para o cinema com versões live action dos seus clássicos, o Rock in Rio (em pleno 2019!) investe em atrações como Black Eyed Peas e Nickelback e a nova novela da Globo se chama Verão 90. Além disso:

  • Caloi ressignificou o clássico “não esquece a minha Caloi” em 2018;
  • A Motorola pretende aproveitar a nova tecnologia de telas dobráveis para relançar o “celular de flip”, Motorola Razr.

4. A EVOLUÇÃO DO TRANSPORTE

ONDE APARECEU: SXSW, Ford

“Em duas ou quatro rodas, acima ou abaixo da terra, a rápida evolução da mobilidade e das entregas segue mudando como nos movimentamos e garantimos o que queremos”

Motivação

Em 2019, é inimaginável um tempo sem a tranquilidade de pedir um Uber. Ou sem a confiança de trafegar com Waze. Ou sem a praticidade de pedir um delivery em 2 minutos e acompanhá-lo chegar de bicicleta em menos de 30.

As evoluções no transporte têm causado todo tipo de mudança de comportamento.

Por um lado, nos deixaram mais preguiçosos ao passo que a caminhada até o ponto de ônibus ou até o supermercado ficaram mais longas graças a serviços como 99 e Rappi. Por outro, abriram novas possibilidades de hobby e esporte no mais banal dos trajetos, com a rápida popularização das bicicletas e patinetes elétricos.

Significado

Seja qual for a principal direção que essa evolução está nos levando, a única certeza é que é um caminho sem volta.

A praticidade se tornou parte essencial da vida das pessoas, e a previsão é de que meios de transporte que foram grandes novidades em 2018 (bicicletas docklesss e patinetes elétricos) se consolidem como parte da vida urbana este ano.

Como acontece na prática

Nesse mercado que está sendo criado tão rapidamente quanto está sendo consolidado, há alguns players principais, mas ainda muita incerteza.

O Uber não é absoluto no transporte on demand, da mesma forma que as amarelinhas Yellow dividem as ciclovias com bikes laranjas, patinetes verdes e entregadores de mochila rosa.

E conforme necessidades atuais vão sendo atendidas, demandas que antes não existiam vão sendo criadas, e com elas novas oportunidades — por exemplo, comparadores de valor de aplicativos de transporte.

A evolução da mobilidade e dos serviços de entrega já afetou restaurantes, supermercados, táxis, a estética das cidades, os hábitos das pessoas, e é provável que não deixará pedra sobre pedra em nenhuma indústria.

“Conforme o futuro ‘AI-powered’ se aproxima, ele vem afetando tudo — da ‘gig economy’ ao design urbano à regulação do espaço aéreo. As empresas de transporte novas e tradicionais precisam seguir se adaptando rápido, ou perderão espaço no mercado de um trilhão de dólares que vai da nossa porta da frente ao espaço sideral.” (SXSW)

Cases

  • Parceria da AMARO com a Loggi para entregar encomendas no mesmo dia na região de São Paulo;
  • WazeCarpool.

5. METRIFICANDO A VIDA

ONDE APARECEU: Trendwatching

“Em 2019, veremos lifestyle e bem estar quase como um problema de engenharia a ser resolvido.”

Motivação

A busca por uma vida com mais saúde, mais mindfulness e mais equilíbrio vem se tornando cada vez mais popular. Causada por (e também causando) uma maior oferta de produtos, aplicativos e guias que prometem facilitar esse processo.

Significado

As ferramentas digitais se destacam ao transformarem resoluções genéricas em objetivos mensuráveis. O “ser mais ativo” virou “andar 5.000 passos todos os dias”, o “meditar” virou “passar 10 minutos por dia no Headspace” e a tecnologia virou uma parceira no controle sobre as nossas próprias vidas.

A consciência e a demanda por qualidade de vida hiper personalizada e conveniente estão crescendo — e rápido.

Como acontece na prática

Nessa nova lógica, a união da gamificação, da metrificação e da busca por qualidade de vida resultam nas mais diversas soluções.

Diversos aplicativos (como FitBit, Apple Health, entre outros) têm aumentado o conhecimento de milhões de pessoas sobre a sua saúde e estilo de vida e despertado a vontade de estar sempre no controle.

De hábitos diários como ingerir litros de água e contar calorias a questões existenciais como mapeamento de DNA e rastreamento de origem genética, tudo que queremos medir sobre nós mesmos pode ser adquirido. Se não hoje, em muito breve.

Cases

  • Apple Watch se assume como uma ferramenta de saúde;
  • No CES 2019, a La Roche-Posay lançou o My Skin Track, um sensor wearable que mede o pH da pele e envia notificações e relatórios para um aplicativo;
  • Headspace: meditação para millenials.

6. TECNOLOGIA TRANSPARENTE

ONDE APARECEU: SXSW, Ford, UX Collective, INC., GlobalWebIndex, FJORD

“As empresas levaram um tempo para mudar o foco do negócio para o usuário. Agora estamos chegando na era em que as empresas vencedoras irão de centradas no usuário para centradas na sociedade. Do singular para o plural.”

Motivação

Escândalos como o da Cambridge Analytica em 2018 deixaram claro que as grandes empresas de tecnologia têm muito (mas muito) poder nas mãos. Se uma vez eram ‘startups desafiando as grandes empresas’, hoje elas são essas grandes empresas.

Com esse poder, vem uma responsabilidade igualmente enorme. As pessoas abriram os olhos para a quantidade de dados que disponibilizam, muitas vezes sem saber, e para o mau uso que é feito deles. E os governos perceberam que não podem mais ignorar o impacto dessas empresas na sociedade.

Significado

Tanto quanto nos entretêm, aproximam e impulsionam, as empresas de tecnologia também nos assustam. Nós somos incapazes de compreender exatamente a extensão do seu impacto, o seu modelo de negócios e o seu efeito sobre a nossa vida — da política à saúde.

Quanto mais dependentes, mais desconfiados. Qual será a marca que vai quebrar esse ciclo, e nos dar mais segurança e tranquilidade no nosso dia a dia, e no futuro?

Como acontece na prática

“Algorítimos, automação e inteligencia artificial criaram um ambiente onde as empresas terão que investir em se tornarem mais confiáveis como vantagem competitiva.”

Esse é um movimento que vai desde a transparência no uso dos dados individuais, até uma visão clara e compartilhada do impacto no longo prazo.

Por que você, seus amigos e outras bilhões de pessoas podem confiar nessa empresa? Qual o plano de evolução de sociedade por trás dos seus objetivos de médio e curto prazo? Como o mundo seria se esse produto tivesse um bilhão de usuários?

Como consumidores, é isso que precisamos começar a nos questionar em relação a cada “inovação” que quer “somente” o nosso e-mail ou login nas redes sociais para nos oferecer uma experiência “incrível”.

Como marcas, essas respostas devem ser claras e facilmente acessíveis. É preciso desenhar uma linha reta entre os dados dos usuários e a entrega de um produto ou serviço cada vez mais relevante em troca.

Cases

  • As políticas do Nubank — em 9 pontos, leitura fácil e sem letras pequenas
  • Guia Bolso e o uso dos seus dados para fornecer uma visualização mais simples, clara e útil.

Esse texto foi escrito por Beatriz Guarezi. Beatriz Hhabita o universo das marcas desde 2013, através de pesquisa, consultoria e conteúdo. É estrategista na Ana Couto, apoiando algumas das maiores marcas do Brasil com posicionamento de produtos e plataformas de marca. Entre elas: SBT, Nextel, Grupo XP, Credicard e Burger King. Em junho de 2018 criou a Bits to Brands, newsletter semanal para unir os universos de marca e tecnologia, que atinge mais de 800 pessoas em todo Brasil. Assine em: bitstobrands.com

 

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