Muitas vezes, questionamos, aflitos, o que deveríamos fazer com nossas carreiras por causa de uma peculiaridade dolorosa de nossa mente: ela nos diz, com especial clareza, o que não gosta de fazer (mesmo se o trabalho for bem pago e tiver prestígio social), mas tende a ficar teimosamente confusa quanto ao que a satisfaria. Temos dentro de nós uma identidade profissional nata que exige fortemente o reconhecimento e, ainda assim, é extremamente vaga, tímida e difícil de conhecer.

A maioria das pessoas é forçada a tateá-la através de longas tentativas e erros acompanhados por auto-observação e reflexão, em vez de encontrá-la pronta assim que saímos da faculdade. Podemos ter de aguentar anos de confusão e uma percepção perturbadora de que não estamos usando nossos pontos fortes e interesses – mesmo que nossa consciência orientadora não saiba ainda no que realmente somos bons e interessados.

A meta, no entanto, é clara desde o início: deveríamos fazer um trabalho profundamente alinhado com nossos “eus” verdadeiros, que não se trata meramente de ganhar a vida, que – embora às vezes possa ser muito difícil e frustrante – atenda aos diferentes movimentos e características de nossa alma, parecendo então adequadamente autêntico. Que soe verdadeiro e não mecânico.

Mas, perdermos o é pode ser aquedado, criativo e novo porque nos distraímos – na maioria das vezes, por tão pouco. Laura Schwecherl, consultora de marketing da Briteweb, explica que “quase 50% dos funcionários americanos dizem que trabalham por apenas 15 minutos antes de se distrair, enquanto 53% relatam desperdiçar uma hora ou mais por dia devido a interrupções”. Esta é a palavra: interrupção. Interrompemos. Cortamos. Deixamos de nos efetivar e nos emocionar criativamente por devaneios que nem sempre são satisfatórios. Esta epidemia de distração tem que acabar! E você possui muito mais controle sobre o que você pensa.

Quando começar a trabalhar, finja por um instante que a tarefa em questão é a única coisa do mundo nos próximos 30 minutos, hora ou por muito tempo que você está dedicando. Para fazer isso com sucesso, você precisa proteger seu ambiente de todas essas notificações incômodas. É como construir um fosso, ou um porão bem apertado e puxar a ponte levadiça para que nenhuma dessas notificações alheias possam entrar. Outra coisa: silencie o celular. Em seguida, coloque-o em algum lugar fora de vista – sua bolsa, bolso de jaqueta dentro do armário ou uma gaveta – para que você não fique tentado a olha-lo quando acender ou sua mente começar a vagar. Depois, volte-se para o outro grande Golias: seu computador. Desative todas as notificações pop-up no seu monitor (mídias sociais, sites de notícias, etc.) e saia da sua caixa de entrada completamente. Se sua empresa usa um sistema de bate-papo grupal, assine ou coloque-o no modo “Não perturbe”. Finalmente, selecione o ruído de fundo que você conheça – inclusive, nas redes de música streaming, como o Spotify, você encontra playlists ótimas de som ambiente. Estas estratégias não impedirão todas as distrações, afinal, são estratégias, não mágica. Mas o ponto em que estou chegando é que você pode assumir o controle sobre a situação. Realmente, o poder de ser produtivo e alcançar a originalidade está em suas mãos, literalmente. No final do dia, se você não terminar algo porque estava muito ocupado enviando meme para seus melhores amigos, a única pessoa com quem você tem que culpar é você mesmo.

Segundo Alain de Botton, o que torna o trabalho autêntico “não é um tipo em especial de tarefa, não tem nada a ver com fazer vasos ou ser carpinteiro (trabalhos muitas vezes associados superficialmente à ideia de autenticidade). É o encaixe profundamente individual entre a natureza da nossa função e nossas aptidões e fontes de prazer.”

Um dos benefícios de identificar o trabalho autêntico é que – enfim – ficaremos consideravelmente livres da inveja. Sempre haverá alguém com um emprego que pague melhor, que tenha um status público mais alto ou benefícios mais glamorosos, mas acabamos percebendo que não adianta ansiar por esse emprego, porque ele não se encaixaria no que conhecemos do timbre peculiar de nosso caráter. O outro benefício de encontrar um trabalho que pareça autêntico é que ele muda nossa relação com o ideal moderno de atingir o equilíbrio entre “vida pessoal e profissional” (não gosto de separar por vidas, plural, afinal temos uma vida só, não?). Há certo grau de pessimismo quanto ao trabalho dentro deste conceito moderno, por insinuar uma necessidade de proteger a vida, a parte preciosa, contra as exigências do trabalho, a força onerosa, mas o trabalho conectado de maneiras muito profundas com quem realmente somos não é o inimigo da vida: é o lugar onde naturalmente nos vemos querendo entrar para extrair algumas de nossas maiores satisfações.

Ser autêntico e, desta forma, produzir algo com esta característica, é conhecer a si mesmo e ir mais fundo. Imergir. Mais denso e não viver do efêmero. Precisa ser orgânico e dinâmico. Livre-se das tecnicidades exacerbadas que o aprisionam e perceba que você tem muito, mais muito para mostrar além do seu currículo. Lembre-se, você é um universo de possibilidades.

Universo de possibilidades

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Essa coisa de definir coisas... Escritor, professor, colunista e curioso. Produzindo o terceiro e-book. Licenciando em Filosofia, com foco nas artes e comportamento. Não vive sem séries - e dramas. Melancólico e péssimo de cozinha. O 2º livro #AConstrucaoDoOlhar PDF free aqui ó: bit.ly/aconstrucao | Vídeos sobre os livros em youtube.com/user/arthiebarbosa