O universo criado por J.K.Rowling para o jovem bruxo Harry Potter é rico e vasto, mas algo em particular que gostaria de trazer para este artigo. Na obra “Os Contos de Beedle, o bardo”, mencionada no livro As relíquias da morte, existe o conto dos três irmãos. Nele, três irmãos versados em magia conseguem dissuadir a morte, ao encontrar uma maneira de atravessar um perigoso rio, onde normalmente morrem os viajantes ao tentar atravessar. Insatisfeita pelos três terem se livrado dela, a Morte resolve, sarcasticamente, presenteá-los.

O primeiro irmão resolve tripudiar e pede uma varinha que o torne invencível, e a morte lhe dá uma varinha feito de um galho de sabugueiro. O segundo decide tripudiar um pouco mais e pede algo com que ele possa trazer alguém de volta do mundo dos mortos. A morte então pega uma pedra do leito do rio e entrega para ele. O terceiro irmão apenas um jeito de sair daquele local sem que a morte o siga, ela rasga então um pedaço de seu manto de invisibilidade e lhe dá.

O primeiro irmão é roubado e assassinado, enquanto dormia, depois de se vangloriar em uma taberna sobre possuir a poderosa varinha. O segundo, ressuscita a noiva que havia falecido precocemente, mas se suicida de desgosto já que apenas um vulto da moça voltara do mundo dos mortos. E assim, a morte consegue levar dois dos três irmãos. O terceiro irmão resolve tirar o manto de invisibilidade, depois de uma vida longa e feliz, e repassar para seu filho. Ele então abraça a morte e seguem como iguais para a eternidade.

Tracemos então, um paralelo da realidade corporativa e o conto do mundo bruxo. No mundo corporativo, assim como os três irmãos do conto, gestores costumam ter atitudes diferentes entre si, mas bem próximo as da história.

É comum encontrarmos gestores que preferem negligenciar a importância da comunicação com seus colaboradores. A comunicação, neste caso, é prioritariamente descendente e os colaboradores são apenas informados sobre as decisões e estratégias da empresa. Não há oportunidade de se manifestarem, uma vez que a liderança não deseja ouvir, afinal ela tem o entendimento de que é auto suficiente para sua tomada de decisões e possui controle sobre os processos executados. Assim como o irmão mais velho, detentor da varinha das varinhas, esse gestor possui uma falsa sensação de invencibilidade, de que nada pode dar errado com ele. No entanto, problemas costumam aparecer de maneira furtiva algumas vezes, e estar com a guarda baixa nesse momento pode não ser uma boa. Uma hora essa bomba relógio explode e, assim como a morte buscou o primeiro irmão, as consequências da má gestão vem buscar o nosso arrogante gestor.

Outro tipo de gestor não muito raro de se encontrar é aquele com uma inclinação para ser bombeiro, afinal está sempre colocando sua equipe para apagar incêndios dentro de sua cadeia produtiva, seja produtos ou serviços. Com um planejamento ruim e sem foco nas causas de tantos incêndios, esse tipo de liderança direciona todos os seus recursos para retrabalhos, impactando diretamente nos prazos e qualidade do que chega até o cliente final. Assim como o irmão que possuía a pedra da ressurreição tinha a ilusão de que vencera a morte trazendo de volta a noiva falecida, esse líder se engana acreditando que apagar incêndios o livra de oferecer uma péssima experiência ao cliente final, já que de uma forma ou outra os produtos ou serviços são entregues dentro do prazo ou com um atraso irrelevante. No entanto, assim como o bruxo tinha apenas uma sombra do que fora a sua amada, o gestor oferecerá apenas uma sombra do que o cliente teria com o produto ou serviço entregue. E assim, a má gestão vem cobrar o segundo gestor!

No entanto, o gestor que, assim como o irmão mais novo, entende que forçar a barra não é o melhor caminho e, neste caso, consegue oferecer aos colaboradores um ambiente de trabalho menos estressante, trabalhando para que haja um alinhamento entre o mindset da equipe com as estratégias, valores, missão e visão da organização. Isso levará à construção de um relacionamento entre gestor e equipe que ajudará muito na jornada necessária para se alcançar o engajamento, e consequentemente melhores resultado. Esse líder abraça a gestão como uma igual, entendendo que não é ele que tem que brilhar mais e sim a colaboratividade dentro de sua equipe. Quando chegar a hora ele não terá dificuldades, assim como o irmão bruxo caçula ao passar o manto de invisibilidade para o filho, em passar o manto da liderança ao seu sucessor.

Ao deparar com o desafio de enfrentar uma gestão de equipes, deve ter em mente que podem até burlar a excelência que ela exige, através da arrogância ou da negligência. Entretanto, assim como a Morte voltou para reclamar os dois irmãos que pensaram ter dissuadido, a má gestão também retornará em algum momento para cobrar as consequências destes gestores. Entender qual o seu papel e o seu propósito dentro do fluxo de valor da empresa será a bússola para que o gestor possa seguir em frente, abraçando a excelência da gestão de equipes e preparando o caminho para a sua equipe.

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Marcelo Oliveira

Jornalista e entusiasta da Gestão do Conhecimento e Inovação, com uma passagem de 17 anos pela EMBRAER, onde atuei na edição de Publicações Técnicas e como focal point de inovação. Estruturei e estive a frente de um programa voltado a conectar pessoas, ajustar processos, melhorar a comunicação e aplicar uma gestão colaborativa e inovadora de equipes, ajudando a desenvolver o potencial humano, através do engajamento e da capacitação. Em paralelo, como freelancer, produzi textos para a revista Villaggio Panamby e para o site infoescola.com. Fundei a Inovadoramente Consultoria para oferecer serviços em gestão de equipes e comunicação. Também sou conteudista no Ideia de Marketing e na Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento, além de professor de Pós-Graduação na ESPM, dentro do Centro de Inovação e Criatividade.