“Ao CEO,

Expresso, em minha liberdade, uma preocupação intelectual. Hoje, ouvi comentários que feriram minha consciência.

‘Olha, você até pode saber a teoria, mas eu sei na prática, e isso é muito mais relevante.’

O mesmo indivíduo me instruiu a PRIORIZAR – e faço a expressão em caps lock como fez com sua voz – a prática. Porque, em sua justificativa, é na prática que se aprende. Que se cresce. Assim o fiz, já que ele é meu supervisor. Minhas indagações perpetuam neste raciocínio. Por que pensar e o exercício da reflexão não podem ser considerados uma forma de trabalho? A atividade prática é mais valorizada do que a atividade intelectual? Parece que a prática é mais importante que a teoria. E então, o equívoco em separar essas duas coisas como se fossem totalmente diferentes.

No cenário acadêmico, o mesmo: ‘Fulano trabalha ou só estuda?’.

Fulano estuda, logo, trabalha. ‘Trabalho’ não é (ou não deveria ser) sinônimo de dinheiro e carteira assinada.

Fazemos as coisas, mas não nos preocupamos em entender o que são. Em todo momento minha preocupação é fazer. E por vezes, esqueço do que de fato estou fazendo, para quem estou fazendo, por que estou fazendo.

As expressões coloquiais demonstram a desvalorização. Mas veja, nem uma, nem outra é mais importante. Ambas são fundamentais no conhecimento – e execução da tarefa. É o resultado de uma necessidade do indivíduo. O conhecimento possui o duplo significado. E então, o clichê: “temos que relacionar a teoria com a prática”. Mas por que não relacionamos? Dicotomizamos. E se você for prestar atenção na história da educação no Brasil, percebemos que esta associação é cultural… Tacocracia.

Pensar é exercitar

Sugiro observarmos mais. E com o exercício da observação, avaliarmos. Ouvir mais! Talvez, reuniões (chamaria mais de conversas) onde a gente pudesse discutir, debater, opinar, refletir, nos torne profissionais mais empáticos, criativos e tolerantes; que rompem no convívio. Que conseguem olhar o outro. E ainda, sugiro profissionais que se preocupam e podem auxiliar com o comportamento interno: terapeutas, psicólogos, psicanalistas, pedagogos, filósofos. Se não for possível, me disponibilizo.

Até porque, não sou apenas o que está no meu currículo. Sou sobreposições. E não há erros em questionar. Em ser curioso – talvez a revolução industrial tenha nos deixado mais apáticos e inertes às relações humanas. Às possibilidades. E preocupados somente em sermos mais rentáveis e vistos.

Não somos robôs, somos pessoas

O conhecimento não se desvincula do sujeito, segundo Russeul. Ele está ligado ao sentido. São as experiências. A interação com o outro, junto aos meus conhecimentos prévios, que cresço. De fato, o meu foco precisar estar alinhado ao que me proponho, mas também acredito que não há razão sem experiência. Esta, advinda da estruturação do que escolho, faço, demostro. Da estruturação do ser. E para ser, preciso existir, de alguma forma. Preciso perceber minha consciência: onde estou e quem sou.

Desculpe se não fui muito claro ou misturei assuntos. Se só falei besteira. Se passei dos limites. Acontece que não tenho muito espaço para desabafos. Aproveitando a rara oportunidade, gostaria também de deixar registrado que sou incompleto.

Cordialmente,”

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Essa coisa de definir coisas... Escritor, professor, colunista e curioso. Produzindo o terceiro e-book. Licenciando em Filosofia, com foco nas artes e comportamento. Não vive sem séries - e dramas. Melancólico e péssimo de cozinha. O 2º livro #AConstrucaoDoOlhar PDF free aqui ó: bit.ly/aconstrucao | Vídeos sobre os livros em youtube.com/user/arthiebarbosa