Mesmo que você não seja fã de futebol e acompanhe todas as partidas, precisa saber o que aconteceu ontem no que seria um clássico entre o Atlético Paranaense e Coritiba. A partida foi cancelada. O motivo vai muito além do futebol.

O que aconteceu foi que ambos os times se recusaram a vender seus direitos à Rede Globo para a transmissão convencional – a oferta realizada não só foi baixa como abaixo do que os clássicos de outros estados receberam. E, por isso, para que os torcedores assistissem ao jogo, os próprios clubes organizaram uma transmissão ao vivo e gratuita pelo Youtube, arcando com todos os gastos.

No entanto, no dia da partida, 19 de fevereiro, a Federação Paranaense de Futebol (FPF) não autorizou que o “Atletiba” acontecesse com esse tipo de transmissão. O que a FPF alegou em seguida foi que parte dos profissionais da imprensa não estava credenciada, o que não tirou o caráter arbitrário dessa decisão.

O jogo não aconteceu. Mas a resistência dos times fez desse um dia histórico, não só para o futebol brasileiro, mas para a grande mídia repensar no seu formato, influência e poder. O jogo ter sido “barrado” foi só mais um motivo para que os clubes continuem firmes em buscar maneiras alternativas de gerar receita e atrair seu público.

atletiba2017

Depois de 40 minutos, os dois times subiram juntos do vestiário para o campo. Os jogadores formaram um círculo no centro do campo e aplaudiram as torcidas. O gesto recebeu aplausos dos torcedores.

A dependência dos times em relação às grandes emissoras está sendo questionada. Por isso, ou o trabalho é feito de forma a beneficiar ambas as partes ou simplesmente não irá mais acontecer. E o mesmo serve para as marcas que precisam investir fortunas por alguns minutos na televisão.

Além disso, podemos fazer algumas outras reflexões interessantes sobre o caso. Perguntamos a Bruno Scartozzoni, fundador da Escritório Caldinas e professor da USP, sobre sua visão ao ocorrido, veja seu relato abaixo:

Bruno ScartozzoniBruno Scartozzoni

“Quando dois clubes de futebol resolvem romper com uma grande emissora, e tentam transmitir um jogo por conta própria, imediatamente pensamos no quão politicamente complicada deve ter sido essa decisão, mas pouco refletimos sobre as implicações práticas disso. Não em termos de contrato e negociação de direitos, mas no sentido do dia a dia mesmo.

Clubes de futebol sempre se preocuparam em gerir o clube e, no final das contas, fazer gols. Mas, a partir do momento em que um clube resolve tomar para si a transmissão de seus principais eventos, outro conjunto de habilidades se faz necessária.

Como gerar imagens? Como escolher um narrador? Como empacotar o jogo dentro de uma narrativa que agrade torcida e espectadores? Como gerar conteúdo de bastidores? Só para ficar com alguns exemplos…

As perspectivas são tão grandiosas quando os desafios. Mas o ponto é que, se o Atlético-PR e o Coritiba seguirem essa linha, ambos os clubes terão que adquirir novas habilidades e criar novos processos dentro do seu dia a dia.

Esse caso é bom para exemplificar o que acontece quando uma empresa qualquer (não necessariamente do mundo do futebol) decide tomar as rédeas de seu próprio conteúdo, uma tendência cada vez mais clara no mundo corporativo. A decisão pode estar certa, mas requer uma série de transformações internas para as quais a maioria das empresas ainda não estão preparadas. Não basta só gerar conteúdo, é preciso viver conteúdo.”

O que a FPF fez, cancelando a partida, não poderia ter sido feito e os torcedores e clubes não vão deixar que isso acabe assim. Cabe a nós acompanhar as transformações que esse caso pode ter iniciado.

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Redação

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