Noutro dia, a zapear o Netflix, encontrei o documentário espanhol The Propaganda Game, de Outubro de 2015, sobre a Coreia do Norte, mais especificamente filmado na sua capital Pyongyang.

Como todos que cursaram os quatro anos de faculdade de Propaganda e Publicidade (sabiam que são mais de 11 mil pessoas por ano que se formam nesse curso no Brasil?), eu tinha a noção de que o termo Propaganda tem origem em propagar uma ideia, e que nos dias de hoje remete à ideologia política e manipulação de informação para fins comerciais e institucionais.

Sendo a Coreia do Norte um país tão fechado e, digamos, com muitas restrições de imagem, o filme surpreende pela quantidade de cenas filmadas em exclusividade e pelos depoimentos obtidos, tentando explicar como seria a lógica da propaganda em um país com uma república socialista, em que 24 milhões de pessoas vivem sob o comando de uma ditadura totalitarista.

Nesse contexto, muito da propaganda se desenrola por meio de discursos estagnados em arquétipos de guerra, onde o vilão é o invasor ocidental e o herói é o resistente do combate, que deve se orgulhar do seu território, defendê-lo bravamente e adorar o seu líder e salvador da guerra. Não é algo fácil de condenar, pois os norte coreanos vivem as consequências dos conflitos da península da Coreia, que foi o centro da batalha entre soviéticos russos e chineses versus americanos estadunidenses e japoneses.

Para a realização do documentário, o cineasta e diretor do filme Álvaro Longoria contou com a ajuda e autorização de Alejandro Cao de Benos, o único estrangeiro que trabalha para o governo da República Popular Democrática da Coreia, sendo um grande apologista do sistema. A equipe do filme foi acompanhada em todos os momentos por políticos, agentes do governo e guias turísticos locais, que tentaram ao máximo mostrar os prós de se viver em uma sociedade comunista, onde o acesso à educação, moradias, saúde, transportes e alimentação é de graça, porém, controladas pelo governo.

Eu imaginei alguma relação óbvia com a figura de Goebbels, Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista, mas talvez o documentário tenha deixado isso para a criatividade dos expectadores ou tenha tido instruções legais para não fazer essa comparação. Afinal, há pouco tempo, em 2014, a Coreia do Norte prometeu fortes represálias à comédia norte-americana The Interview, da Sony Pictures, sobre o líder ditador norte-coreano Kim Jong-Un.

A argumentação do documentário The Propaganda Game baseia-se em contradizer as cenas de felicidade filmadas das rotinas dos norte-coreanos com os discursos do “eixo do mal” mostrados na imprensa do ocidente – não necessariamente nesta mesma ordem.

Ou seja, o documentário tenta alguma imparcialidade, em alguns momentos mostra as falácias da vida norte-coreana, com imagens de um povo bem alimentado, saudável e educado gratuitamente, sendo felizes na sua ignorância sobre os problemas mundiais e nas limitações de liberdade. E em outros momentos, apresenta o exagero do discurso de terror contra a política do país, os boatos criados pelos “inimigos” e os números de comparação com o armamento e exército dos Estados Unidos.

Assim, as conclusões sobre quem é o mocinho e quem é o bandido são deixadas a cargo de quem assiste o documentário. Mas a intenção do documentário não era mesmo condenar ou apoiar o sistema. Era mostrar a lavagem cerebral que a propaganda é capaz de fazer nas sociedades, seja a “nossa” ou a “deles”, ambas sociedades movidas por discursos persuasivos e condicionadas pelo que os governos querem que o povo assuma como verdade.

É um documentário para assistir com senso crítico e refletir sobre a manipulação das informações, obrigatório para quem trabalha nesta área.

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Renata de Freitas

É publicitária de Floripa, mas vive há mais de 10 anos em Portugal, onde trabalha com Marketing Empresarial, fez PhD em Comunicação Estratégica e participa de grupos de investigação da área. É apaixonada por Branding, por assuntos criativos e por lugares inspiradores.