O que Orkut, Hemingway, Carl Rogers e a vida nos ensinam sobre a escrita.

Ano passado, escrevi dois textos com este título, traçando tópicos básicos para os amantes desta área. Hoje, continuo aprendendo e compartilhando das dicas.

Recentemente entrei na “Hello”. A nova plataforma social digital do Orkut Buyukkokten,– mesmo que recente e com muitos bugs -, trouxe uma exposição curiosa e interessante das habilidades que você pode preencher no seu perfil (se você ainda não conhece, ele mesmo explica neste vídeo [em inglês]). Depois de 60 questões, que lembram um teste vocacional ou psicotécnico, para definir minha personalidade (Hello Class), fui preencher uma de minhas Personas, “Escritor”. Travei em várias perguntas. Pois é, mesmo depois de tempos escrevendo, não havia notado certas dúvidas.

É rudimentar (e talvez normativo?) a gente, povo da comunicação, estruturar-se com boas influências e demonstra-las através de nossas palavras. Afinal, a forma como escrevemos diz quem somos.

Primeiro, tente me responder algumas das perguntas feitas pelo Orkut (e sua equipe, claro):

Quando você começou a escrever?

Eu comecei quando criança e achava que iria ser escritor de fantasia, inventando ‘mirabolísses’ sobre vampiros. Você consegue se lembrar do primeiro pedaço de papel que usou como rascunho?

Você mantém um diário?

Quando vi pensei: “que bobeira”. Mas não é não. Hoje mantemos sim um diário, quase que instantâneo, todo dia. Toda hora. Na ponta dos dedos. É cada mensagem errada que escrevemos. Cada e-mail estranho. Cada post.. e muitas histórias! Escrevemos histórias todos os dias, de acordo com nosso Tempo (lembra do Zeitgeist?).

Já vi agentes literários exigindo como prática, 6 mil caracteres diários. Outros, mil palavras diárias – além das que você já produz como conteúdo profissional. Acredito que, se você for um conhecedor de causa independente, a metodologia é sua, de acordo com a demanda e acervo disponíveis de vocabulário, artigos e pesquisa. O importante é: não pare de escrever. Se não for todo dia, mas toda semana. Esse treinamento te dará subsídios para desenvolver sempre algo alicerçado, coeso e primoroso.

Escrita tem tudo a ver com empatia. Segundo Carl, “é preciso ver o mundo com os olhos do outro, e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.”. Escrever sobre pessoas aproxima, amplifica e aprimora seu trabalho.

Quando você começou a levar a escrita a sério?

Em outras palavras: você respeita a língua que escreve? Se lembra das aulas da escola? Não precisa ser profissional da área para levar a escrita a sério, né?

Você estudou para escrever?

Vide resposta anterior.

Quais gêneros você domina? Você escreve principalmente contos ou romances?

Se estiver confuso e for pesquisar na internet (somos passíveis de dúvidas sim), use o Google Acadêmico. Ele pode te suprir com várias literaturas que explicam cada um.

E aqui, a importância de estarmos em constante pesquisa. O psicólogo Carl Ransom Rogers via como objetivo da vida a liberação desse potencial de crescimento, tendo como resultado a pessoa aberta à experiência, vivendo de maneira existencial. E um dos caminhos que ele apontava era o ensino e a motivação da pesquisa. Viver e escrever. Ou escrever e viver. Por aprendizagem significativa, entendo, aquilo que provoca profunda modificação no indivíduo. Ela é penetrante, e não se limita a um aumento de conhecimento, mas abrange todas as parcelas de sua existência.”.

Qual seu autor e editora favoritos?

Difícil escolher um. Ou dois. Dá trabalho fazer uma curadoria de referências, não é? Mas elas podem nortear sua identidade enquanto profissional. O estilo que você sobrepõe a sua técnica. É bom tem influências.

Como você descreveria seu tom?

Ácido. Cru. Leve. Espontâneo. Caricato. Melancólico. Ditador. Repulsivo. Íntimo. Técnico. Forçado. Retrógrado. Sistemático. Objetivo. Romântico. Inspirador. E dentre tantos outros, você começa a formar a massa do seu bolo. Claramente, não trabalhamos somente com um ingrediente (tom), mas sempre existe o que sobressai. O bolo é doce ou é salgado (e amargo, talvez).

Como você lida com prazos e críticas?

“Desculpe, não sei opinar” não seria uma boa resposta, viu?  Quatro formas básicas de driblar estes quesitos são: (i) mudar sua perspectiva, sabendo diferenciar o que constrói ou destrói. (ii) abraçar nossa imperfeição e fazer autoanálise sempre. (iii) saber que há uma linha tênue entre o pessoal e profissional. Por isso, respeitar opiniões diferentes da sua. (iv) saber pedir desculpas.

Carl disse: Descobri que sou mais eficaz quando posso ouvir a mim mesmo, aceitando-me, e quando posso ser eu mesmo. Aceitar-se a si mesmo é um pré-requisito para a aceitação fácil e genuína do outro sobre o meu trabalho.”

Como você se aquece antes de escrever?

(Talvez ele estivesse perguntando: “Quais são suas inspirações”?).

Como você quebra o bloqueio de escritor?

Desbloqueando. Cada um possui um ‘mantra’ que o ajuda neste processo. Meditação. Yoga. Corrida. Café. Música. Série. Viagens. Sexo. Nova leitura. Olhar para céu. Drogas ilícitas. Novo crush.

Como você aborda a narrativa de uma obra?

Melhor maneira de descobrir essa resposta é discutir com seus amigos sobre algum livro, filme ou série. Quais elementos daquele plot te conquistaram? Qual cosmovisão das personagens? Por que o escritor explorou este cenário? Existe preocupação com a arte? Se for audiovisual, por que a produção artística e direção usaram estas cores e trilhas? O ambiente traz influências de quais escolas filosóficas? Quais os ganchos e moral da história? As analogias e metáforas foram bem construídas? Qual o propósito? Qual o significado?

Qual importância da revisão?

Se formos revisar aquele ‘diário’ lá de cima, imagine o tanto de correções. Como escritores e comunicadores verbais gerais, sabem a primordial importância da revisão. Certo? Lembre-se de fazer pausas enquanto escreve. 15 minutos, um dia, uma semana. Mas faça. Respire e reabasteça. Sempre surge coisa nova. E sempre tem uma correção para ser feita.

O que você faria se acontecesse um apocalipse-zumbi?

Desbravaria o mundo. E você?

As perguntas são quase infinitas: históricas, sobre carisma, interesses, formação, opiniões e criatividade.  Acredite, são muitas! Mas paremos por aqui (se interessar, entre no aplicativo e dê uma stalkeada. Veja como as pessoas estão se comportando por lá).

Por fim, vale refletirmos na forma como estamos entregando tudo isso.  A carta de Ernest Hemingway a Fitzgerald, exposta pela escola de atividades criativas Perestroika, nos dá bons insights. Percebo que diante desta vida efêmera, a grande maioria se vê com seus argumentos desalinhados e acríticos. Vamos ponderar.

“Se você está falando sobre pessoas reais, não mude o passado delas. Inventar é ótimo, mas você não pode mudar nada que não acontecera na realidade. (…) É isso que se espera de nós em nossos melhores momentos — inventar — mas inventar com tanta verdade que acabe mesmo acontecendo.”

Ouvi dizer que as histórias irreais são o escopo do escritor. Não posso concordar. O utópico é necessário – aliás, sem ele, talvez não existiria o quê crer, ou criar -, mas o real é inspirador. Brincar com o passado e o futuro de uma personagem e já no dossiê expor sua trajetória, é importante, mas não obrigatório. Liberdade de ir e vir com a narrativa todos temos, mas a preocupação com a coerência textual precisa ser intrínseca. Onde há pessoas, há possibilidades.

 “Mas digamos que você não saiba do caso; então você tem de escrever, inventar a partir do que você conhece e respeitar os antecedentes das pessoas. Em segundo lugar, faz tempo que você só escuta as respostas para suas próprias perguntas. E com toda a sua capacidade, não precisa fazer isso. É isso que seca um escritor (todos nós secamos. Não é ofensa nenhuma), não escutar. Tudo vem daí. Ver, escutar. Você vê muito bem. Mas parou de escutar.”

Esqueça por um instante os perfis ‘esteriotipados’ e observe os detalhes dos comportamentos, reações, movimentos, diálogos, emoções, palavras não ditas, imagens ao seu redor. Vá a uma cafeteria e ande pelas ruas. Filas de banco e supermercado. Shopping e praça de alimentação. Escritórios e salas de reunião. Faça isto com frequência e então, suas criações serão mais empáticas e verossímeis. Nem tudo será digno de Obra-prima, Bestseller ou Pulitzer, mas de crescimento e satisfação própria. Continue estudando. Continue escrevendo. Continue.

“O único homem que se educa é aquele que aprendeu como aprender; que aprendeu como se adaptar e mudar; que se capacitou de que nenhum conhecimento é seguro, que nenhum processo de buscar conhecimento oferece uma base de segurança.” Carl Rogers

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Essa coisa de definir coisas... Escritor, professor, colunista e curioso. Produzindo o terceiro e-book. Licenciando em Filosofia, com foco nas artes e comportamento. Não vive sem séries - e dramas. Melancólico e péssimo de cozinha. O 2º livro #AConstrucaoDoOlhar PDF free aqui ó: bit.ly/aconstrucao | Vídeos sobre os livros em youtube.com/user/arthiebarbosa