Pokemon Go. A febre do mundo. Com números incríveis, o aplicativo de realidade aumentada rapidamente deixou de ser promessa e virou desejo não só de jovens, mas de gerações antigas no mundo todo. Em 2015, a Nintendo teve queda de 60% na bolsa. Já em 2016, em dois dias, o game ajudou a levantar a Nintendo no mercado de games com valorização de 7,5 bilhões de dólares. Por que Pokemon Go deu certo? Quais estratégias estão por trás?

Primeiro, vamos aos números.

Se você ainda não está convencido do sucesso de Pokemon Go, vamos aos números que, em poucos dias, o game apresentou sendo lançado somente nos EUA, Austrália e Nova Zelândia:

1 – Segundo a empresa de análise de vendas de aplicativos SensorTower, Pokemon Go já foi baixado 7,5 milhões de vezes só nos Estados Unidos e gera 1,6 milhões de dólares por dia apenas na loja da Apple;

2 – Segundo o El País, o valor da Nintendo aumentou em 9 bilhões de dólares desde o lançamento do game, dia 6 de julho. Em apenas um dia, as ações da Nintendo na Bolsa de Tóquio fecharam com aumento de 25%.

3 – De acordo com a Similar Web, em um dia o aplicativo já estava instalado em 5,16% de todos os smartphones Android dos Estados Unidos;

4 – Segundo reportagem da Época, os jogadores passam 43 minutos diários no jogo. Mais que Facebook, Whatsapp, Messenger, Instagram e Snapchat;

5 – Segundo a SuperData, o jogo já gerou 14,4 milhões de dólares em micro transações, itens pagos para acelerar o rendimento do personagem no game;

6 – Pokemon Go, em menos de uma semana, conseguiu ultrapassar em números de usuários o Tinder, que possui 4 anos e o Twitter, que possui 10 anos;

7 – O jogo conseguiu o recorde de 21 milhões de usuários diários, ultrapassando o Candy Crush. Com isso, Pokemon Go se tornou o maior game mobile da história dos EUA;

8 – Segundo reportagem do g1, Brasil já é o segundo país que mais faz downloads “por fora” do jogo, uma vez que ainda não foi lançado oficialmente no país.

O que é Pokemon Go na prática? Da onde veio e como se alimenta?

O jogo foi criado através de uma parceira entre a Nintendo e a Niantic Labs, empresa que pertencia a Google e se tornou independente há alguns anos. Na prática, o jogo é semelhante aos antigos jogos de Game Boy, onde existia um personagem que se aventurava por cidades, procurando pokémons e derrotando líderes de ginásios. A grande diferença é que Pokemon Go trouxe esse sistema para a tecnologia de realidade aumentada através do smartphone, o que aconteceu a interação entre a ficção e a realidade. Nós mesmos somos os personagens, a nossa cidade é a cidade a ser explorada através de um GPS, com líderes de ginásios que também são pessoas reais e pokémons que se projetam, através da câmera do celular, em lugares reais.

Na primeira imagem abaixo, o cenário de Pokemon Go. Semelhante a um GPS de carros como o Waze, a cidade onde você está localizado se transforma em um mundo pokémon a ser explorado. Conforme o usuário anda, pokémons, pokestops e ginásios vão aparecendo no local.

Na segunda imagem, a torre ao fundo com um pokémon em cima, representa um ginásio Pokémon. O jogo é divido em três equipes, amarelo, azul e vermelha. Caso exista uma torre perto de você com cor de outra equipe, você poderá entrar e enfrentar os pokemons para conquistar aquele ginásio para a sua equipe.

O ginásio é sempre defendido por uma pessoa real que deixa seus pokemons para defenderem o local. Exemplo, caso o estádio do Maracanã seja um ginásio, o usuário ao derrotar outro usuário, deixa alguns de seus pokemons mais fortes para trás no intuito de defender o posto. Com isso, o usuário poderá explorar outros lugares, porém, sem seus pokemons deixados para trás. Caso alguém de outra equipe decida atacar o ginásio, você receberá uma notificação de ataque. Caso perca, precisará voltar ao Maracanã para recuperar o ginásio.

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Ao clicar em um ginásio, aparecerão os pokémons deixados pelo líder, conforme a primeira imagem abaixo. O usuário precisará montar uma estratégia de acordo com os pokémons do líder para conseguir derrotá-los. Se tiver pokémons de fogo, o usuário deve usar pokémons de água para maior desempenho, por exemplo. Veja na imagem abaixo.

Na segunda imagem, a representação da luta entre pokémons. Já na terceira imagem, a notificação quando você conquista um ginásio. O ginásio é representado por uma imagem e nome real do local, para os usuários poderem achá-los na vida real.

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Quais foram as estratégias de sucesso da Nintendo? Por que deu certo?

Não basta só lançar um jogo para conquistar os olhares do mundo todo. É preciso entender de comportamento de consumo e estar alinhado as principais características da sociedade atual, além de possuir inteligentes sistemas de monetização. E foi exatamente isso que a Nintendo, sabiamente, conseguiu enxergar. Vamos analisar alguns pontos importantes das estratégias da Nintendo.

1 – Pokestops e sistema de monetização para comerciantes. Dentro do jogo, os usuários precisam ir para lugares chamados Pokestops, locais reais onde se recuperam pokemons, ganham pokebolas e diversos itens. Em entrevista ao Financial Times, o CEO da Niantic, John Hanke, afirmou que em breve o jogo estará aberto a locais patrocinados, ou seja, comerciantes poderão transformar seus estabelecimentos em pokestops e atrair dezenas de jogadores. Se bem utilizado, o comerciante poderá reverter a movimentação em consumo. Segundo matéria publicada na Exame, O pizza bar L’inizio em Long Island, em Nova York, teve aumento de 75% nas vendas em um único final de semana pela ativação do recurso “módulo de atração” que pode ser comprado para atrair pokémons virtuais para a loja, o que se torna um chamariz de usuários atrás de pokémons.

2 – Monetização através de micro transações. O jogo permite que usuários comprem itens para adquirir, por exemplo, pokebolas melhores, incensos para atrair pokémons, poções de vida entre outros itens que melhoram o rendimento do jogador. Como citado anteriormente no artigo, as micro transações já renderam 14,5 milhões de dólares em poucos dias.

3 – Nostalgia e tecnologia. A Nintendo entendeu que trazer uma geração de 20 anos atrás para a atualidade ajudaria a pulverizar ainda mais o game. A marca poderia trazer a geração atual de pokémons e lidar com o público mais jovem, porém, teria um crescimento bem menor. O fato de misturar um elemento nostálgico como a primeira geração de pokémon com algo inovador como a realidade aumentada, originou uma combinação poderosa. Muitas empresas, ao inovarem, escolhem a geração atual como público, pois pelo senso comum é a que possui maior afinidade com novidades tecnológicas. Porém, quando o foco é somente na geração atual, o processo de popularização é mais lento, demorando alguns anos para se firmar. Seja pelo envelhecimento da geração que conheceu a tecnologia ou pela redução de custos da mesma. O que a Nintendo fez foi inverter a lógica. Implementou uma tecnologia nova para a geração antiga. Usou o sentimento nostálgico – de boas lembranças da infância – para atrair adeptos e com isso, a nova geração se sentiu obrigada a acompanhar o ritmo, aumentando ainda mais a penetração do game.

4 – Atividade física e vida social. Ao contrário do que os games são acusados, Pokémon Go não é rotulado por incentivar o sedentarismo e a vida anti social. Com a necessidade de se locomover e trabalhar em equipes, o jogo utiliza como fator de evolução no jogo a distância percorrida. Para conseguir uma série de objetivos do jogo como evoluir um pokémon, passar de nível, conquistar ginásio entre outros, o usuário precisa se locomover uma quantidade específica de metros, além de poder interagir na vida real com outros participantes e conhecer lugares públicos, os quais são demarcados no game como pokestops ou ginásios. Essa estratégia foi vital para que as gerações que não são nativas digitais perdessem argumentos contra a cultura dos games e criassem simpatia pelo jogo.

Na primeira imagem abaixo, a foto de um pokestop. Um local público que o usuário precisa chegar para conseguir novos itens e recuperar seus pokémons. Já na segunda imagem, a foto de ovos de pokémon. Para ser chocados, o usuário precisa percorrer 5 km.

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A Nintendo de fato conseguiu amarrar muito bem suas estratégias. Escolheu a plataforma mobile para ter mais praticidade, a tecnologia de realidade aumentada e a nostalgia para atrair gerações mais antigas e novos simpatizantes da cultura dos games, implementou sistemas de  monetização tanto para usuários quanto para comerciantes e implementou atividades físicas e trabalho em equipe como fatores essenciais no desenvolvimento do usuário no jogo. Pokémon Go já é considerado o maior exemplo de realidade aumentada aplicada em massa na sociedade. É interessante observar como a Nintendo, durante anos tentando ser só inovadora, descobriu dentro da sua própria casa o resultado para o sucesso que é a primeira e grande geração de Pokémons. Existem marcas que, na ansiedade de se tornarem atuais, se esquecem do quão valioso é seu passado e tradição. A Granado, por exemplo, passou anos em queda e só depois de resgatar o seu passado e trabalhar de forma estratégica que conseguiu se fortalecer e assumir grande participação no mercado e na mente dos consumidores.

Pokemon Go abriu os olhos de todos empreendedores e marcas no mundo todo. Mostrou-nos o futuro pelo buraco da fechadura. A tecnologia de realidade aumentada irá transformar definitivamente a economia e a sociedade. A Nintendo se tornou um grande case de como o mundo virtual e o real estão convergindo. Já imaginou um brinquedo bate-bate ou até mesmo um kart de verdade com a temática do jogo Mario Kart? Hoje vemos uma aplicação nos jogos, mas existe grande expectativa para diversas outras áreas como a geração de conteúdo. Aulas com interação digital, onde o aluno passeia por dentro do corpo humano, por exemplo. Exercícios em academia com cenários de trilhas do mundo todo e até filmes com total imersão do espectador no cenário. Essas entre outras infinidades de aplicações que Pokémon Go nos mostrou possível.

O futuro já chegou. Só não está bem distribuído”. (William Gibson)

E a Nintendo, com o Pokémon Go, conseguiu potencializar essa distribuição e acelerar um processo de inovação tecnológica. De fato é muito mais do que apenas um jogo de celular.

Obs: as imagens usadas no artigo foram retiradas do vídeo de youtube do canal Coisa de Nerd “MINHA ESTRATÉGIA! – Pokemon Go (Parte 03)

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Gabriel Dias

Redator publicitário, colunista, estrategista e consultor de marcas. Enxerga o que tem de melhor nas pessoas. Acredita no poder das relações humanas, da empatia e do sorriso. Apaixonado por Branding e por dança de salão.