Crise política, inflação, corrupção, desemprego, insegurança, violência, esses são alguns dos motivos pelos quais muitos jovens e bons profissionais dizem que querem sair do Brasil.

Esse tipo de discurso costuma me preocupar, não apenas pela fuga nacional de bons talentos, mas por conhecer muitas pessoas que não se adaptam a um país estrangeiro, na medida em que têm uma ideia romantizada e irreal do que é a realidade externa e o cotidiano de viver outro país.

Uma experiência no exterior é certamente enriquecedora, preenchendo o currículo, a alma e os álbuns de fotos. Sair da zona de conforto, da casa dos pais e do aconchego da sua cultura é um desafio que pode mudá-lo para sempre.  Sem falar que o convívio com pessoas que pensam em contextos diferentes faz com que o nosso ponto de vista sobre o mundo se expanda. É literalmente “open your mind“.

Entretanto, para passar uma temporada fora (mais do que uns dias de viagem turística), pode ser preciso algum preparo psicológico que nem sempre as agências de intercâmbio e as fotos do Google e dos seus amigos do Facebook ensinam.

Por isso, quando alguém me pede uma opinião sobre sair do Brasil para morar uma temporada na Europa, eu costumo, talvez por auto-defesa e instinto de sobrevivência, começar pelos pontos menos bons.

Não me interpretem mal, já vão lá quase 10 anos fora do Brasil, e eu não os trocaria por nada, porque moldaram positivamente quem eu me tornei. Mesmo assim, eu não consigo romantizar a imigração, porque a verdade é que ser imigrante não é exatamente fácil.

Acredito que muitas pessoas “quebram a cara” porque saem do Brasil com um conjunto de expectativas que não correspondem à realidade, principalmente na Europa ocidental (que é onde posso dar opinião, embora alguns amigos dos EUA já tenham partilhado o mesmo ponto de vista).

Se você está pensando em uma temporada no exterior, não desanime, pode ser a melhor coisa que acontecerá à sua vida (como aconteceu comigo), mas não custa tomar uma dose de “pé no chão”:

Reflita sobre o seu perfil emocional

Estar em um país onde você tem um costume diferente, um sotaque incomum, e onde a sua família não esteja presente, pode ser incrivelmente bom ou incrivelmente mau. Há pessoas com sede de desafios e que se sentem estimuladas e entusiasmadas com um cotidiano diferente. Há outras que ao fim de poucos meses não aguentam as dificuldades de burocracia e de “solidão” (questão de perspectiva) e pegam um avião de volta… Você se conhece melhor do que ninguém para refletir em qual perfil se encaixa.

Pesquise muito

Antes de tudo, é preciso pesquisar exaustivamente sobre o local de destino. Quais são os hábitos locais, quais as possibilidades de estudo e de emprego, quais as distâncias entre os locais de interesse, onde é melhor morar, quais os transportes que valem a pena, qual a probabilidade de adaptação à língua, existem pessoas que podem ajudar no início? Quanto mais familiarizado você esteja, será mais fácil.

Converse com outras pessoas na mesma situação

Um networking inicial é importante para perceber quais são os benefícios e quais são as dificuldades de uma mudança de país. Outros imigrantes saberão dar dicas preciosas que poupam o tempo da burocracia e facilitam os processos de vistos e de regularização. Pode ser um pouco difícil fazer amizades imediatamente com estrangeiros e os brasileiros costumam se “unir” em grupos de ajuda no exterior.

Calcule o custo de vida

Entre nos sites de imobiliárias de casas, nos sites de supermercados, de suportes de informática e faça uma estimativa realista de gastos mensais. Isso vai ajudá-lo a ter mais segurança na decisão. É imprescindível viajar com algum dinheiro, mesmo que haja uma promessa de trabalho ou de bolsa de estudo, pois a questão da legalização pode demorar e a probabilidade de gastos imprevisíveis, como por exemplo com relação à saúde, não podem ser ignorados.

Não tente o jeitinho brasileiro

Por favor, não. As regras de cada país existem para ser cumpridas. Algumas podem ser bem difíceis de contornar, mas não vale a pena tentar burlar e queimar o seu filme. E por consequência, queimar o filme dos seus compatriotas.

Em Roma, sê Romano

Não adianta reclamar da hora da siesta, achar estranho o horário de funcionamento do comércio, deprimir-se porque não encontra pão de queijo e doce de leite na padaria (isso quando se encontra uma padaria). Aprenda a adaptar-se aos costumes locais, aproveite para experimentar novos sabores e novos moldes. Não deboche de hábitos que lhe pareçam estranhos, isso é falta de educação. Encare como um exercício de flexibilidade.

Exija respeito

Você é o estrangeiro, mas também precisa ser respeitado. Caso passe por uma situação específica de preconceito, humilhação, abuso, exploração, não pense duas vezes em “rodar a baiana” e cair fora.

Test Drive

Tá na dúvida? Nada como fazer uma tentativa. As tecnologias facilitam muito o contato com os amigos e a família que ficam, bendito seja o Skype e o Whats App. E em caso de tristeza, não pense duas vezes em voltar para o seu porto seguro. Boa viagem!

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Renata de Freitas

É publicitária de Floripa, mas vive há quase 10 anos em Portugal, onde trabalha com Marketing Empresarial, fez PhD em Comunicação Estratégica e participa de grupos de investigação da área. É apaixonada por Branding, por assuntos criativos e por lugares inspiradores.