A Uber trouxe ao Brasil, um modelo de gestão disruptivo baseado em princípios da economia colaborativa. Preços mais baixos, utilização de bens (carro) para uma renda extra, atendimento superior e o principal, oferece poder e voz ao consumidor. Seu sistema ficou conhecido como Revolução Uber, que inspirou milhares de empreendedores de diversas áreas além do transporte. Porém, com o sucesso do modelo, novas empresas começaram a estudar prós e contras e hoje, o Oceano Azul construído pela Uber já começa a ter as primeiras gotas vermelhas. A Uber não está mais sozinha e seus concorrentes já começam a apresentar ameaças reais. Conheça alguns deles e algumas estratégias para a Uber poder manter o espaço conquistado.

Toda vez que uma marca traz uma inovação nunca antes vista em tal mercado, ela ganha uma grande vantagem: poder atuar sozinha. Um pouco da história da Uber no Brasil, ela entrou para salvar reféns do sistema burocrático do táxi. Tanto passageiros quanto motoristas. Sua missão é melhorar a mobilidade das pessoas. A Uber mostrou que, com alguns princípios da economia colaborativa (reputação e avaliação), poderia aumentar significativamente a qualidade do serviço sem ter um aumento de preço. E pelo contrário, praticando preços ainda menores. A querida do Vale do Silício rapidamente conquistou o mundo e a opinião pública. Sua estrutura não trouxe somente criatividade, trouxe inovação. Percebemos valor agregado em nossa cultura e encaramos hoje como uma evolução. O que gerou o termo Revolução Uber.

Não demorou muito tempo para observar que o sucesso rápido e estrondoso da Uber pudesse ir além dos transportes. A avaliação e a reputação como poder de voz ao usuário, que hoje é autoral, contribuem para uma comunicação mais transparente, reduz custos e gera mais valor percebido. Fatores que catalisaram a conquista do mercado. Uma vez que o motorista pode ser advertido, suspenso e até expulso de acordo com a nota que receber do usuário, além do rápido sistema de reembolso caso sua corrida dê um valor diferente do estimado. Ao invés de contratar dezenas de órgãos fiscalizadores de pura burocracia que taxam mais do que conservam, o próprio público se torna fiscal, dando poder à colaboração.

Primeiros predadores

Hoje, no Brasil, o mercado que a Uber construiu e que até pouco tempo estava sozinha, em um Oceano Azul livre de predadores e concorrentes, começa a ser explorado por novas empresas, as quais viram os erros da Uber e críticas dos usuários e motoristas (sim, a Uber não é perfeita), como preços dinâmicos, falta de chat com o motorista e repasses pequenos ao motorista e lançaram no mercado marcas de enorme potencial que farão com que usuários da Uber tenham opções tão boas quanto. Conheça algumas delas:

– WillGo Brasil: com a mensagem de “Seu tempo, seu dinheiro”, o aplicativo permite agendar corridas com até 48hrs de antecedência, selecionar motoristas favoritos, sem preços dinâmicos, transporta não só passageiros, mas objetos. Além de não cobrar 20-25% dos motoristas por cada corrida, a grande reclamação dos motoristas da Uber.

 – T81: o aplicativo oferece preços até 60% mais baratos que táxi, pagamento em dinheiro direto ao motorista, sem preços dinâmicos, diferentes categorias como carros populares, executivos, moto-táxi e moto-delivery. Além de um programa de quilometragem que se transforma em pontos que podem ser revertidos em descontos, o chamado clube T81.

 A WillGo e a T81 já estão no mercado e a cada dia pegam uma fatia da Uber. Além delas, no resto do mundo já existem outras grandes como a Cabify (que anunciou chegada em São Paulo em Maio de 2016), a norte-mericana Lyft, que já recebeu investimentos da tradicional GM e a chinesa Didi Kuaidi. Tanto a Lyft quanto a Didi Kuaidi não tem previsão para entrar no mercado brasileiro, mas no resto do mundo já fizeram parcerias para combater um inimigo em comum, a Uber.

Todas as novas concorrentes vão entrar com uma grande vantagem: ter uma análise dos erros da Uber e poder aprender antes mesmo de errar. Fato que fará com que a Uber tenha muito trabalho caso queira manter o topo do mercado.

Qual o melhor caminho para a Uber seguir?

Com a tendência do mercado ficar cada vez mais cheio de concorrentes que ofereçam serviços do mesmo nível e até melhores, o risco de o que se enxerga como diferencial hoje se tornar commodity no futuro é bem grande. Chegará um ponto que qualidade do serviço, a água, a bala, o diálogo transparente, a praticidade, a segurança, os preços acessíveis e tudo que atrai pessoas para a Uber se transforme em requisitos mínimos esperados. Com isso, se destacará a marca que trouxer e que gerará maior valor intangível para o usuário. O que é o grande trunfo da Uber no Brasil: ter sido a primeira a ter trazido a revolução para o país. Ter libertado os motoristas de um sistema mafioso e falido de táxi e os passageiros de taxistas mal educados que escolhem corrida e não se importam com o usuário (percepção pública do mercado). Uma história que se for bem aproveitada estrategicamente poderá gerar grande conexão emocional, fazendo com que usuários continuem usando a Uber mesmo tendo concorrentes com serviços tão bons quanto e até melhores. Marcas que possuem histórias relevantes em determinada cultura geram valor intangível, que as destacam muito mais do que pseudodiferenciais como preço, qualidade e tecnologia.

Vale lembrar o caso da Apple, que foi a primeira marca a trazer para a sociedade um computador com display gráfico e mouse, transformando a informática, que era algo corporativo em algo popular, além de inventar o primeiro reprodutor de músicas digitais do mundo (ipod), o Itunes foi o primeiro da sua categoria, o Ipad foi o primeiro tablet e o Iphone foi o primeiro smartphone do mundo. A Apple soube bem se apropriar do discurso de que abriu portas para a humanidade e hoje, mesmo com preços superiores e produtos semelhantes e até inferiores em termos de componentes tecnológicos, consegue todo ano bater recorde de vendas. Como diz Simon Sinek, pessoas não compram o que você faz, pessoas compram o porquê, o motivo que te leva a fazer o que você faz. A conexão emocional é muito mais profunda pra decisão de compra do que fatores racionais. Pessoas se identificam mais com propósitos relevantes do que com o produto em si.

A grande vantagem está para os usuários e motoristas

Com o mercado cada vez mais populoso e competitivo, quem tende a ganhar somos nós usuários e os motoristas dessas empresas. Como são marcas da economia colaborativa (que dependem da avaliação do consumidor) é muito difícil formar cartel. Um motorista da Uber pode ser motorista da T81, da WillGo, da Lyft e de qualquer outra empresa. O carro é dele e não tem contrato de exclusividade com nenhuma delas. Cabem as empresas agora competirem entre si para oferecerem as melhores condições ao motorista. Caso ele ache a Uber com um repasse ruim, ele pode atuar pela WillGo e vice versa. Enquanto os usuários, cada vez mais terão mais opções e promoções para escolherem as marcas que acharem melhor. A Uber estava sozinha em um mercado novo, se ela não foi exploradora antes, agora mesmo é que não vai ser mais. Como disse em outros artigos sobre a Uber, o maior inimigo da Uber não são os taxistas nem o governo, mas sim as marcas concorrentes que vão chegar dentro da economia colaborativa. E é o que está acontecendo. A Uber no Brasil trouxe uma revolução que hoje está maior que ela e que se não tomar cuidado, a própria criação pode tirá-la do topo.

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Gabriel Dias

Redator publicitário, colunista, estrategista e consultor de marcas. Enxerga o que tem de melhor nas pessoas. Acredita no poder das relações humanas, da empatia e do sorriso. Apaixonado por Branding e por dança de salão.