Em 1984, um cara chamado W.K. Kellog fez uma descoberta que mudaria pra sempre o café da manhã das pessoas. Em busca de tentar algo mais digestivo para os pacientes do hospital de seu irmão consumir entre o café e o almoço, o ex-vendedor de vassouras (sério) acidentalmente deixou um pote de trigo de molho para fora durante a noite. O trigo tornou-se uma pasta macia e quando Kellog o cozinhou, cada grão tornou-se um floco crocante saboroso. Com o resultado, Kellog tentou a mesma técnica em milho e, ao longo de anos, ele aperfeiçoou os flocos experimentando e testando diferentes fórmulas. Ele havia inventado os “corn flakes” (cereal, ou sucrilhos, como falamos em alguns locais do Brasil).

Com essa ideia, Kellog estava decidido que não apenas os pacientes do hospital com restrições alimentares, mas também toda população deveria usufruir da sua invenção. Então, ele cuidadosamente posicionou seu produto a fim de comercializá-lo, criando uma marca reconhecível e memorável. A genialidade de Kellog não partiu somente da criação do produto, mas também sua abordagem centrada no consumidor, com todo processo de prototipação e experiência do produto. Além de cientista de alimentos, podemos afirmar que foi um designer genial.

Todos os elementos de design são importantes na criação de um produto, e desempenham um papel importante na experiência e impacto de um produto sob o usuário. Mas todos aqueles recursos como maquetes de pixel-perfect e elementos de interface do usuário dribble-friendly são apenas um componente de um produto bem projetado.

Sobre Design Thinking

Design thinking é essencialmente a interseção de conveniência e viabilidade.

A metodologia ficou conhecida e disseminada pela IDEO, empresa influente pioneira do design thinking, responsável por conceber produtos como o primeiro mouse da Apple, é sinônimo de inovação na criação de novos produtos ou sistemas. O design thinking reúne o comportamento humano com o que é tecnologicamente viável para os novos produtos.

Essa metodologia é um modo repetitivo, centrado no ser humano para a resolução de problemas e inovação criativa. Bem parecido, o método de Kellogs, fez reinventar o almoço dos pacientes, através de uma abordagem holística para o projeto com inspiração de pessoas reais, funcionando dentro do mercado e restrições tecnológicas, e considerando cada touch-point do produto como uma oportunidade para surpreender, encantar e proporcionar benefícios aos usuários.

Quando bem aplicada, a abordagem centrada no usuário enriquece a criação de produtos que impactam profundamente uma audiência, estimulando engajamento e crescimento.

Mas, que atenções devemos ter ao utilizar essas metodologias?

Fazer as perguntas certas

Se você se vê lutando para conseguir novas soluções, presos dentro de um problema, então você está fazendo as perguntas erradas. Quando reenquadramos o problema dentro dos viés voltados ao usuário, fazendo perguntas centradas nestes, aí então passamos a enxergar o problema de outra forma, trazendo assim a solução para a pergunta.

Saia de trás de sua mesa

Apesar da infinidade de informações disponíveis por trás dos limites confortáveis da tela do computador, o risco de estagnação mental é imenso para você cair em rotinas previsíveis. Há a necessidade de sair para o mundo e perceber os contextos que as pessoas estão usando o seu produto – você ficará surpreso com a rapidez com que  oportunidades inesperadas são reveladas na prática.

Faça o feedback do usuário ser rotina

Quando você está trabalhando a uma velocidade vertiginosa com prazos apertados, ter tempo para recolher feedback dos usuários pode não acontecer. Mas não há nenhum substituto para a nuance e profundidade de visão que pode vir de uma conversa em pessoa. Com a abordagem certa para reunir seu público, os resultados podem ser de oportunidades e melhorias, além de verificar rapidamente premissas-chave e reunir inspiração para novas ideias.

Quando trabalhamos com protótipos podemos cair no risco de exigir um nível avançado tanto da experimentação quanto do feedback do usuário. Protótipos interativos permitem feedbacks menos engessados, e desencadeiam conversas enriquecedoras para o projeto.

Você também pode usar os produtos dos concorrentes como uma maneira de entender rapidamente o que as pessoas valorizam.

Pense em design como um esporte de equipe

“You have to feed forward if you want feedback.”, o  professor de design de Stanford, Matt Kahn, está certo. Ao articular ideias para alguém você está automaticamente avançando seu pensamento. Enquanto isso, colaboradores trazem referências e pensamentos divergentes para o problema, elevando o trabalho.

Para incentivar esse comportamento, é importante cultivar o mindset de que toda ideia é compartilhada. Quando uma ideia surge, ela é da equipe e não do indivíduo. O cenário inverso pode funcionar como uma kryptonite para a inovação. É sobre a qualidade da ideia, e não sobre os créditos, lembre-se.

Construa protótipos de baixo custo

O conceito do produto mínimo viável (MVP) tornou-se doutrina no mundo de startups – em parte – graças a Eric Reis e seu livro The Lean Startup. Junto com um processo interativo de desenvolvimento ágil, essa filosofia build-to-learn casa perfeitamente com uma abordagem design-driven, human-centered.

Antes de criar seu MVP, pense em protótipos de baixo custo para testar hipóteses do produto/projeto. Teste, teste e repita. Desenhe o raciocínio do seu protótipo em ferramentas digitais acessíveis, um Keynote, por exemplo. Montando o fluxo do seu protótipo de forma visual, fica mais fácil identificar a real eficácia dele antes de gastar dinheiro com algo que possa vir a não funcionar.

Assim como Kellogs fez, envolvendo seus usuários desde o início do projeto, prototipando para aprender, e aplicando uma abordagem design-driven para cada touch point ao longo da sua jornada de produto – do início ao fim e não só na embalagem do seu produto como a maioria pensa, podemos ter excelentes resultados de inovação. Mais importante que toda essas metodologias: teste. Teste, teste e novamente: teste. Experimente diversos pontos de vista e possibilidades.

Metodologias centradas no usuário começam com as pessoas que você está projetando e termina com novas soluções que são feitos sob medida para atender às suas necessidades. Design centrado no ser humano é tudo sobre a construção de uma profunda empatia com as pessoas que você está projetando para; gerando toneladas de ideias; a construção de um bando de protótipos; compartilhar o que você fez com as pessoas que você está projetando para; e, eventualmente, colocando a sua solução nova e inovadora no mundo. Pense por outros ângulos e se coloque no lugar do seu usuário/consumidor/cliente. E não esqueça de comer seus sucrilhos.

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Marcella Gielfi

Entusiasta da gestão do conhecimento, CAPM e White Belt, atua com foco em gestão de equipes e projetos digitais, integrados e multi-plataformas, além de consultorias na área e curadoria de conteúdo.