O dia em que eu cabulei a rotina

O dia em que eu cabulei a rotina

Não vou mentir e dizer que resolvi cabular a rotina em uma hora e, na outra, já me encontrava fora dela. Não foi tão simples e nem de maneira súbita, no susto, que tomei tal decisão.  Mas o dia que deixei a rotina de lado foi um dia em que senti que havia mais do mundo ao meu dispor. Foi um dia em que eu me permiti escolher o que eu queria fazer, aceitando suas possíveis  consequências, me desgarrando da casca oca que vinha carregando e que de fato. Não estava me ajudando pessoal, social e profissionalmente. Não estava ajudando também a própria mente a trabalhar com a tal rotina e com todas as ramificações que acompanham o pacote. Se a mente já não andava bem, o coração vinha lamentando aos cantos do peito, pois quando não se está feliz com a vida que se leva, o corpo responde da maneira como pode para que se repare a situação.

Quebrei a rotina. Tinha o costume de levantar tarde. Acordei cedo já pensando no que iria fazer nas próximas horas a fim de que o fluxo tradicional de como realizava as coisas fosse quebrado. Eu devia mostrar ao relógio (e a mim mesmo) e seus segundo e minutos cúmplices que eu poderia muito bem me mover parar reverter a situação. Tomei um bom café da manhã antes de me direcionar ao aeroporto, onde, de lá, iniciei meu percurso para longe do congestionamento capitalista do dia a dia.

Já afastado do centro carregado da metrópole, era possível sentir a casca se soltando aos poucos. Era um peso considerável aquele ao qual eu renunciava, um sentimento de autonomia e liberdade não deixou de ficar evidente e era possível notar, de tempos em tempos, um sorriso sincero aparente que não pediu licença ao meu rosto. Era muito bem-vindo, por sinal.

Descrevendo o momento: eu estava em constante contato com a natureza; mar, rio, mata atlântica, areia, alguns animais e um silêncio interno de paz. Não havia uma massa de gente com seus herdeiros correndo e gritando de um lado para o outro, nem qualquer tipo de incômodo sonoro por perto. Larguei mão de meus tênis e senti o que a natureza pode nos proporcionar se nos permitirmos nos entregar a ela. Eu percebi ali, fincado na areia, que estava em um processo interno de desconstrução. Desconstruir para construir. Mergulhar para emergir.

Quando retornei, no fim do dia, tinha algumas certezas em mente: a de que ouviria mais meu coração e instinto no que eu fizesse dali em diante; a de que eu buscaria fazer/trabalhar com o que eu tinha uma predisposição natural; e a de que eu não era mais o mesmo desde aquele momento.

Sair da rotina me rendeu bons frutos a priori, mas não só frutos, eu descobri sementes e como cultivar uma vida mais autêntica, intensa e sincera comigo mesmo, e isso se reflete para o mundo.

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Marcos Holanda

Curioso. Inconstante. Inconformado. Seria interessante me conhecer um pouco mais pelos meus textos, eles representam parte de mim. Então, boa leitura!

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