Leia a primeira parte da série: Lovemarks: amor, alma e propósito como estratégia de marca. Da mitologia grega até a Apple (Parte I)

Mitologia grega como origem das nossas influências

A cultura da Grécia antiga influenciou a maioria dos países ocidentais. A forma como fazemos política, como estudamos e pensamos são oriundos dos gregos. A mitologia não foi diferente, os contos e lendas gregas passaram princípios e valores que percorreram centenas de gerações até os dias de hoje. Diversos aspectos que moldam nossa sociedade vieram dos gregos. Muitas histórias da Disney, que fortemente nos influenciou, foram influenciadas pela mitologia grega e com o amor não foi diferente. A fonte mais pura que conhecemos e que nos ensinou como devemos amar e como devemos pensar para construir uma relação amorosa, forte e estável vem da mitologia grega. Em específico do conto de Eros e Psique.

Dentro de cada conto da mitologia grega, eram passadas diversas lições de moral sob diversas perspectivas. O mito de Eros e Psique é uma longa e rica história que ensina valores como o amor, confiança, erotismo e diversas outras. Porém, para o contexto do artigo, farei um recorte na história, o qual exemplificará como direcionar o amor para uma construção sólida, harmônica e frutífera a longo prazo.

O mito de Eros e Psique

Psique era a mais nova e a mais bela das três filhas de um rei de Mileto. Sua beleza era tanta que pessoas de várias regiões iam para admirá-la. Por ter uma beleza quase divina, poucos homens se diziam dignos de serem verdadeiros e merecedores maridos. Já suas outras duas irmãs, com belezas mais tradicionais, conseguiram casar-se. Ao longo do tempo, o pai de Psique continuava promovendo eventos para achar um marido, onde homens a veneravam como uma deusa.

A repercussão da beleza de Psique foi tanta que Afrodite, deusa do amor, ficou enciumada com o notório destaque de uma mera mortal e mandou seu filho, Eros, em uma missão para influenciar os oráculos a aconselharem, negativamente, o destino de Psique. Porém, ao ver a beleza de Psique, Eros se apaixonou, mas teria que continuar o trabalho, pois o castigo por desobedecer sua mãe, Afrodite, seria cruel.

Com o passar do tempo e sem esperanças de um bom marido, o rei e pai de Psique, suspeitando ter ofendido os deuses, foi consultar o oráculo de Apolo, já que suas filhas estavam bem encaminhadas e Psique ainda estava sozinha. Influenciados pela inveja de Afrodite, o oráculo ordenou ao rei que enviasse sua filha ao topo de uma solitária montanha, onde encontraria e se casaria com uma terrível e alada serpente. Psique foi levada à montanha e abandonada pelos seus parentes e amigos.

Conformada e sem esperanças com o destino, Psique foi tomada por um longo e profundo sono até que foi levada pelos ventos de Zéfiro (em grego, o vento do Oeste) para um lindo castelo.

Ao acordar, se deparou com um castelo que jamais imaginara em sua vida. Tudo era perfeito e muito além do que sonhou. Ao entrar no palácio, todos os seus desejos foram realizados pelos servos. Psique tinha ganhado na loteria. Ao anoitecer, um homem com o rosto mascarado se apresentou como seu novo marido. Um homem sensível, amoroso e dono de sábias e delicadas palavras. Não sabia Psique que era Eros e a máscara era para se esconder da fúria de Afrodite, que jamais poderia saber que seu filho desobedeceu uma ordem e que se apaixonou pela mulher que a ofuscava.

Eros então, explicou para Psique que ela seria dona do mais belo e profundo amor, que teria todos os sonhos realizados, mas com uma condição: jamais pedir para Eros revelar sua identidade para ela. Psique teria que estar com seu novo marido pela forma de pensar, pelos princípios, atitudes, valores e não pela beleza física. Apesar de Eros ter herdado a beleza de Afrodite e ser um belo homem, impôs essa condição com medo de Afrodite descobrir e os separá-los para sempre.

Com o passar do tempo, Psique pediu para seu misterioso marido, para que a deixasse ver suas irmãs e seu pai. Até mesmo para que eles ficassem felizes pela conquista e felicidade de Psique. Eros, com medo da inveja e de falsos valores, atendeu os pedidos de Psique, mas a alertou para não se envenenar com pensamentos fúteis e a manter o segredo que sustentava seu amor.

Ao encontrar sua família, Psique comentou de seu novo e magnífico castelo, da realização de todos os seus desejos e de que estaria grávida de um homem muito gentil, carinhoso, amoroso e que fazia tudo por ela. As irmãs, enciumadas, começaram a questionar e a atiçar a curiosidade de Psique, afirmando que, pelas palavras do oráculo, Psique se casaria com uma cobra alada e que provavelmente o seu novo marido não pudera revelar seu rosto por ser de fato o de uma cobra. Maliciosamente, as irmãs de Psique, com pensamentos fúteis e pobres, especularam que Psique poderia estar grávida de um monstro e que ela teria que descobrir a identidade de seu novo marido.

Envenenada pelos pensamentos das irmãs, ao anoitecer, Psique pegou uma vela e cuidadosamente se aproximou de Eros, que estava dormindo com a máscara. Delicadamente, levantou a máscara e percebeu que estava casada com Eros, filho de Afrodite. A beleza de Eros era tanta, que Psique ficou fascinada e paralisada, observando a perfeição de seu novo marido. Em choque, Psique, sem querer, deixa cair sobre o peito de Eros uma gota de parafina líquida, acordando Eros.

Ao perceber que Psique teria quebrado sua promessa, Eros, decepcionado com a atitude de Psique diz: “Tola Psique! É assim que retribuis meu amor? Depois de haver desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos são fúteis, superficiais e não entendem o verdadeiro amor. Não lhe imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor tem que vir de dentro para fora. Do coração e da alma. Dos princípios e valores. O amor não pode conviver com a suspeita”.

Psique, então, teria destruído uma futura relação sólida, feliz e estável por ter direcionado o amor de fora para dentro, priorizando primeiro a beleza física e as aparências para depois observar o que mais importa: o coração, a alma e o propósito.

O mito de Eros e Psique não para por aqui, porém, como falei anteriormente, para o contexto do artigo, a relevância maior da história vai até o momento do abandono de Eros e o castigo de Psique por não saber direcionar de forma correta o amor. O conto foi a origem da lição de moral de que o que realmente importa e o que tem que vir primeiro é a beleza interior. Quando julgamos de fora para dentro e priorizamos a aparência, estamos caminhando contra a construção de uma relação sólida e a longo prazo.

As lovemarks se diferenciam das outras marcas por justamente conseguirem não só entender o amor, mas direcioná-lo como foi ensinado no mito de Eros e Psique, de dentro para fora. Entender que o amor deve vir de dentro para fora através de um conto mitológico não é difícil. Mas como marcas, como a Apple, aplicam essa lição amorosa dentro de um ambiente estratégico e empresarial?

Golden Circle – Essência, alma, coração e propósito

Simon Sinek é um autor que conceituou uma ferramenta chamada de Golden Circle, que ilustra o motivo, por exemplo, da Apple ser tão inovadora do que seus concorrentes, conseguir cobrar mais caro, ser a empresa mais valiosa do mundo e que sempre bate recordes de faturamento, sendo que possui o mesmo acesso ao talento, agência, consultores e mídia. Independente dos erros estratégicos, a Apple consegue inspirar e revolucionar mercados, criando “applemaníacos” pelo mundo todo.

Em palestra no TED, Simon Sinek diz que existe um padrão, um direcionamento na forma de se pensar que é comum nos grandes líderes e marcas da história. Todas elas agem, comunicam e pensam da mesma forma. E que esse padrão é completamente oposto ao que as outras empresas fazem. Ele apresenta o Golden Circle. A imagem possui 3 círculos, um dentro do outro. No núcleo e menor, temos o “why”. O do meio, que envolve o menor se chama “how” e o maior, que envolve todos se chama “what”.

goldenSimon Sinek argumenta que cada pessoa e marca no mundo, 100%, sabe exatamente o que fazem. Porém, pouquíssimas marcas sabem o motivo e o propósito do que fazem. A grande maioria pensa em lucro, mas lucro é o resultado e não o propósito e essência da marca.

A grande maioria das marcas pensam de fora para dentro. Pensam primeiro no que devem vender ou oferecer e depois como devem fazer isso. Quando, na verdade, o caminho, como vimos no mito de Eros e Psique, deve ser de dentro para fora. Marcas que estabelecem verdadeiras relações de amor, independente da área e da indústria, tem seu propósito e essência bem definidos.

O “why” significa o porquê da existência da empresa, a sua causa, o seu propósito, a sua crença e a sua essência. A Apple, por exemplo, não pensou primeiro nos seus produtos, mas sim em um propósito e causa baseados em fortes princípios e valores. Priorizou o seu coração e pensou de dentro para fora, assim como devemos fazer nas relações amorosas entre pessoas.

Se a Apple pensasse de fora para dentro, ela falaria como todas as outras marcas falam. Iria entrar no Oceano Vermelho da comunicação. Onde todos brigam por preços, disputam cada atributo e só pensam em vender seus produtos. Ela utilizaria em sua comunicação algo do tipo “Temos os melhores computadores, as melhores telas, um sistema operacional fluido e com design inovador”. Todas as marcas fazem isso. Pensam primeiro no produto (what), para depois falar como (how) e as vezes nem sequer chegam em comunicar o real propósito e a essência da marca (why).

A Apple, muito por causa do Steve Jobs, tornou-se um ícone cultural. Steve Jobs ao criar a Apple, antes mesmo do sucesso e da criação do primeiro computador, preocupou-se em implementar um forte propósito e essência para a marca. Pessoas não amam o que você faz, amam o motivo e o propósito que impulsionam o que você faz. O sonho do Steve Jobs sempre foi o de ser um líder do mundo da tecnologia. De quebrar o status quo, de colocar arte na ciência exata dos microchips, de puxar a raça humana para frente, de revolucionar mercados, de mudar o mundo e se tornar um ícone cultural. Essa é a essência da Apple (why), isso é o que impulsiona todas as atitudes da marca, todos os pontos de contato, os treinamentos e a cultura interna. Depois a Apple pensou em como fazer isso para cumprir sua promessa, a qual foi através de aparelhos eletrônicos (how). Somente depois de definir o “why” e o “how” é que a Apple conseguiu chegar ao “what”, honrar sua promessa e materializar sua essência, princípios e valores. Foi o caso, por exemplo, da criação do McIntosh, que revolucionou a forma como lidávamos com a informática, oferecendo pela primeira vez no mercado um computador pessoal com mouse e display gráfico. Depois veio outra revolução, o Ipod, primeiro reprodutor portátil de música digital do mundo. O Ipod mudou a forma como consumíamos músicas. E por último, uma das principais revoluções mundiais, a criação do primeiro celular com acesso à internet, o primeiro smartphone, o Iphone.

A cada lançamento, uma revolução. Não conseguimos imaginar o mundo de hoje sem smartphone. Não conseguimos mensurar a evolução da humanidade após aplicarmos o smartphone na política, economia e relações sociais. É por isso que a Apple é uma lovemark. Ela de fato honra sua promessa de ser responsável por revoluções tecnológicas que vão facilitar nossas vidas e puxar a raça humana para a frente. Steve Jobs era determinado a mudar o mundo e de fato conseguiu. As pessoas se apaixonam pela história e importância da Apple no mundo. Se ela focasse somente nos produtos, teria pouca elasticidade no mercado. Tecnologia é fácil de copiar. A Samsung ou a Motorola conseguem criar celulares tão bons quanto e a preços mais baratos, mas a Apple continua sendo a empresa mais valiosa do mundo pela sua essência, alma, personalidade e história. Isso é quase impossível de copiar.

Muitos empreendedores pensam somente no fator mais externo, no produto. Abre-se uma paleteria e todos copiam. Pensam que, somente porque o produto do concorrente deu certo, devemos copiar para termos o mesmo sucesso. O amor é estratégico, pois ele estabelece uma relação além da razão. A Apple foi criticada várias vezes por especialistas com erros em lançamentos, dando motivos para que seus consumidores a trocassem, mas ela continuou batendo recordes de venda e se mantendo como a marca mais valiosa do mundo. A Apple utiliza o amor, entende o amor e o mais importante, como vimos no mito de Eros e Psique e no Golden Circle, a Apple sabe direcionar o amor, pensar de dentro para fora. Ela valoriza princípios e valores. Não digo que o produto não é importante. Todas fases são muito importantes, mas elas precisam ter um direcionamento certo. E esse direcionamento é de dentro para fora. É valorizando a alma, o propósito, princípio e a essência que marcas como a Apple e casamentos entre pessoas conseguem atingir um relacionamento estável, sólido e frutífero a longo prazo.

Em um dos seus últimos discursos em público, Steve Jobs emocionou a plateia e disse que o tempo é limitado, para não passarmos nossas vidas vivendo a vida de outra pessoa e que o que realmente importante é viver nossos sonhos. Seu pensamento pode ser aplicado tanto em nossa vida pessoal quanto em nossa vida empreendedora. Não passe o tempo copiando a ideia dos outros. Coloque o seu sonho em seu negócio, pense primeiro em essência, propósito, princípios, valores e personalidade. Isso vai fazer com que seus produtos, mesmo que inferiores, tenham uma áurea e que sua marca seja amada. Foi assim que a Apple foi além de uma empresa de tecnologia e se tornou a Apple que conhecemos, que conquistou a lealdade e estabeleceu uma verdadeira relação de amor de parte dos seus consumidores.

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Gabriel Dias

Redator publicitário, colunista, estrategista e consultor de marcas. Enxerga o que tem de melhor nas pessoas. Acredita no poder das relações humanas, da empatia e do sorriso. Apaixonado por Branding e por dança de salão.