O conceito de normose, segundo Pierre Weil, um dos responsáveis pelo estudo do assunto, nada mais é do que um conjunto de hábitos, crenças e valores considerados normais e que, na realidade, são patogênicos e letais, e suas consequências podem ser a infelicidade, assim como levar à perda de sentido da vida e à morte.

Morte. Aqui, no caso, abordaremos a morte daquilo que carregamos intrinsecamente em cada um: a criatividade. Morte essa causada por vícios em comportamentos condicionados e aceitos, uma crença partilhada pela grande maioria e que, por sua vez, desestimulam o processo criativo conforme se repetem mais e mais. Esses comportamentos são definidos pela sociedade como “comportamentos normais”, ou seja, aquilo que aprendemos como uma forma de se viver, um padrão social, para sermos aceitos, para que tenhamos progresso, sucesso e, quem sabe, alcancemos a felicidade completa. Será assim mesmo?

 Weil frisa que um dos problemas da normose é que ela é inconsciente e silenciosa. Inconsciente, pois você é normal e nem se dava conta disso. “Mas, como assim? Claro que sou normal”. Sim. Sabemos que é, porém, essa normalidade lhe apetece? Essa tal “normalidade” é tão “natural” que se faz tudo sem ao menos percebemos tais comportamentos. Já está registrada e impregnada no inconsciente como agir dentro dos padrões sociais, esses mesmos que você está pensando. Se não, pense mais um pouco. De onde você aprende que se deve sempre comportar-se de tal modo, pois, agindo assim, você será mais feliz e a chance de você “se dar bem” na vida é maior? Essa forma de viver, dentro das mais aceitáveis normalidades da sociedade, realmente atribui algo de valor? E até onde é saudável ser normal? É inconsciente também o fato de que as consequências desses vícios podem ser muito prejudiciais à saúde do corpo e isso, claro, envolve a massa encefálica que você tem aí em cima.

Você também não perceberá que está agindo de modo normótico enquanto os males desses hábitos não causarem sofrimento suficiente em você ou no seu modo de viver, isto é, o silêncio (interno e externo) é mantido até que realmente o problema se torne grande a ponto de atrapalhar sua vida, tornando-se uma doença, um malefício social. (O que é que eu estou fazendo com a minha vida?)

O que é normal, afinal?

Pierre ressalta que, para chegarmos a uma conclusão do que é normal, devemos, primeiro, esclarecer o que é anormal, logo, o seu antônimo. Seguindo seu raciocínio, podemos fazer um teste escolhendo alguns termos que comumente escutamos serem dignos de um ser anormal, como, por exemplo: irresponsável, estranho, rude, inquieto e excêntrico. (Esses foram alguns termos que pensei no momento, claro que você deve ter pensado em muitos outros, o processo continua o mesmo.)

Agora, pensemos o contrário de cada um desses termos para chegarmos ao que de fato é normal em uma pessoa:

  • Irresponsável – o contrário seria uma pessoa: séria, sensata, ajuizada*;
  • Estranho – o contrário seria uma pessoa: comum, habitual, simples*;
  • Rude – o contrário seria uma pessoa: delicada, agradável, civilizada*;
  • Inquieto – o contrário seria uma pessoa: tranquila, despreocupada, estática*;
  • e Excêntrico – o contrário seria uma pessoa: discreta, banal, trivial*.

*Existem muitas outras definições, escolhi somente algumas para os exemplos. Fica livre a extensão das mesmas.

Sendo assim, construí a imagem em minha mente de um ser aceitavelmente normal e seria o seguinte:

Uma pessoa normal é ajuizada e comum, pois se mantém dentro da margem do que todos usam ou fazem; ela também se mantém discreta e despreocupada, os problemas do mundo nem sempre te abalam e é mais cômodo cuidar quase que exclusivamente da sua própria vida e nada mais. Ah! claro que com essas e outras características ela é agradável aos olhos dos demais, pois não causa nenhum tipo de desconforto ou instiga de alguma forma. Tendo isso em mente (e permitindo sua mente divagar mais além), podemos dizer que isso condiz com um ser criativo? Deixo a reflexão.

Espírito de rebanho

Esta é outra expressão que Pierre Weil utiliza para deliberar à cerca do nosso vício em fazer tudo igual sempre. Possuímos as mesmas coisas, vestimos as mesmas roupas, bebemos das mesmas bebidas, frequentamos impreterivelmente os mesmo lugares, fazemos o mesmo caminho da casa para o trabalho (e vice-versa), falamos as mesmas gírias, utilizamos as mesma palavras na redação, andamos com as mesmas pessoas, assistimos aos mesmo programas, temos muitos rituais para as ações de nosso dia a dia. “Toda normose é uma forma de alienação”. A impressão é a de que vale mais escolher como guia o comodismo social da massa, pois assim se parece mais apropriado e se evita críticas. Enquanto isso você não se vê como uma pessoa criativa, pois sempre falta algo para começar aquele trabalho ou para trazer à tona algo novo, ou até mesmo dar uma outra cara, inovar, surpreender. Como ser criativo fazendo mais do mesmo, como todo mundo, repetidas vezes? Fugir do funcionamento regular, tido como o mais permissível, tira os créditos de alguém no mercado? Não para quem quer instigar o pensamento criativo. À vista disso, ser uma pessoa que trabalha com criação, querendo se manter pleno das “normalidades coletivas” não ajuda o pensamento criativo e, possivelmente, faz com que apareça bloqueios, entraves, e esmoreça o ofício em si (deu preguiça de iniciar aquele job, não?). Do contrário, exercer uma certa “normalidade saudável”, aquela que lhe faz observar as coisas de uma maneira diferente, de ponta-cabeça, de dentro-pra-fora, se mostra mais produtivo e excitante.

Ao produzir mais do mesmo, deixa-se de lado o senso crítico e abandona-se a inovação. E como botar em prática a imaginação sem se ter a iniciativa de ir contra o pensamento de lugar comum, do status quo, do espírito de rebanho,?

Em meio a esse oceano existe o “se arriscar”, que rema contra a maré da normose criativa. Para se produzir grandes ideias deve-se arriscar, ser diferente e, por que não, um pouco anormal.

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Marcos Holanda

Curioso. Inconstante. Inconformado. Seria interessante me conhecer um pouco mais pelos meus textos, eles representam parte de mim. Então, boa leitura!