Leia o primeiro texto da série – Economia colaborativa como um passo evolutivo – Parte I

Imergindo na economia colaborativa

Com os conceitos sociológicos e as evoluções do marketing e da economia ao longo do tempo, podemos abordar com mais clareza o atual momento da economia colaborativa.

Segundo Cezar Taurion, CEO da Litteris Consulting, a tecnologia digital transformou o mundo à nossa volta: a maneira como consumimos, estudamos, nos relacionamos, nos comunicamos e a economia dos nossos países. Fator esse, que deu início ao processo de um novo modelo econômico, chamado de economia colaborativa. O qual é diferente do nosso modelo econômico atual, o de posse, onde apenas consumimos. Nesse modelo, a interação e a co-criação são limitadas.

A internet vem, ao longo do tempo, amadurecendo a nossa natureza de compartilhar e co-criar. Basta observar a experiência no Facebook, onde compartilhamos links, vídeos, jogos, eventos e fotos o tempo todo. O Youtube também é um bom exemplo, plataforma onde hospedamos vídeos de terceiros e/ou que nós mesmos produzimos, compartilhando com o mundo todo. O Wikipedia, enciclopédia colaborativa, o Mercado Livre, plataforma que viabiliza compra de produtos entre terceiros e o Linux, modelo de software de código aberto. Percebe-se um movimento colaborativo embrionário encubado pelo mundo digital.

Não é atual esse movimento colaborativo. O modelo de colaboração do mundo digital foi exportado para o mundo real. Com os problemas da globalização, como as crises econômicas, os problemas ambientais e os conflitos sociais, o consumo cada vez menos é material e cada vez mais é pensado, fator que fez com que as marcas começassem a ver com bons olhos a dinâmica de colaboração e participação usada na internet.

O consumo de moda por exemplo, passou pelo mesmo processo de exportação que o modelo de compartilhamento e colaboração passa nos dias de hoje. Gilles Lipovetsky, em o Império do Efêmero, explica que o modelo de produção de moda, o qual a todo instante um produto novo é lançado e valorizado, fazendo-nos abrir mão dos antigos mesmo em pleno funcionamento, veio das passarelas, do mundo fashion. E hoje em dia, o modelo de moda é utilizado em todas as esferas da sociedade. Porém, só se tornou um modelo de sucesso, pois dialogava com as necessidades e transformações da época. O que está acontecendo com a economia colaborativa é exatamente isso, a exportação da essência de um modelo utilizado em uma determinada esfera da sociedade para as demais, dialogando com as mudanças sociológicas, políticas e econômicas atuais.

A economia colaborativa faz parte de uma série de evoluções. Antes a economia era pensada no produto, depois no serviço até chegar na experiência. Agora com o amadurecimento do uso da internet e os avanços tecnológicos, estamos na onda da experiência por colaboração. O consumo deixa de ser material e passa a ser por valores e autenticidade. Cada vez mais o consumidor é o protagonista.

Reputação e segurança como principais ativos

Algumas marcas possuem modelos 100% dentro dos moldes da economia colaborativa, enquanto outras se adaptam aos poucos. Muito da polêmica envolvida nas marcas como Uber e Airbnb é a questão da segurança. Escuta-se muito sobre o receio de confiar em outras pessoas que não conhecemos, o que tornou necessário sistemas bem elaborados de reputação para conquistar a confiança dos usuários.

Rachel Botsman, em palestra ao TED, contou que a reputação é a moeda da economia colaborativa. Rachel caracteriza evolução da confiança ao longo do tempo a partir de ondas: a primeira foi quando passamos a compartilhar informações online, a segunda foi quando começamos a comprar com cartões de créditos na internet e agora estaríamos na terceira onda: fazer conexões com estranhos e compartilhar produtos, serviços e experiências. Enquanto o maquinário era o capital mais precioso da Era industrial, a reputação é o ativo mais valioso da economia colaborativa. Cerca de 4 anos atrás, receber um estranho em sua casa pelo Airbnb era uma ideia rejeitada por quase todos. Hoje, em 2014, existe praticamente um anfitrião Airbnb em cada rua da cidade de Paris. Empresas como o Uber e o Airbnb criam sistemas de reputação modernos que passam mais segurança aos consumidores. Caso um anfitrião receba uma grande quantidade de críticas, seu perfil no aplicativo irá ficar com reputação baixa, dificultando fechar novos negócios no futuro. O sistema de reputação no Airbnb existe tanto para o contratado quanto para o contratante. Caso o hóspede quebre algum objeto, ele terá de arcar com as consequências.

O Uber por exemplo, faz uma análise de multas, de comportamento e do estado do veículo para aceitar pessoas como motoristas. A cada corrida o condutor é avaliado com críticas detalhadas que servirão de filtros que irão desde retirar o condutor da atividade até colocá-lo como um bom motorista.

Os modernos sistemas de reputação também foram exportados da internet. Recentemente, o Uber recebeu investimento de US$ 1,2 bilhão, o que elevou seu valor de marca para US$ 18,2 bilhões. Já o Airbnb, tem seu valor de marca em US$ 12 bilhões, possuindo só no Rio de Janeiro 40 mil leitos, o que equivale 50% da capacidade hoteleira da cidade. Resultados que demonstram a eficácia desse novo modelo colaborativo com base em sistemas de reputação avançados.

UBER vs Taxistas

A polêmica que envolve o Uber com os taxistas cresce pelo fato do aplicativo ser acusado de ser um serviço ilegal e inseguro para a população. Para falar da insegurança, basta notarmos o sistema de reputação e de confiança criado pelo aplicativo. Para ser um motorista da Uber, o usuário precisa ser motorista profissional, possuir o carro regulamentado ou trabalhar para alguma empresa de transporte. Existe uma regulamentação, mas que não é a mesma que foi feita pelos taxistas. A maior questão é: muitas pessoas se sentem mais seguras e bem tratadas pelos motoristas do Uber do que por alguns taxistas. Quando o usuário passa por uma situação negativa no Uber, ele tem uma plataforma rápida, prática e portátil para reclamar e sabe que será escutado e que a reputação do motorista vai cair, fazendo com que futuras pessoas não passem por aquele determinado tipo de situação negativa. Já quando os usuários passam por alguma situação negativa com taxistas, o consumidor não sabe aonde reclamar ou não reclama por saber das burocracias envolvidas entre taxistas e o governo. O Uber dialoga com mais precisão com o novo tipo de consumidor, por isso o aplicativo vem sendo admirado pelos usuários.

A questão não é se o Uber é ou não prejudicial para a população. A questão é que o Uber encontrou uma forma mais rápida e menos burocrática de fazer acontecer uma necessidade da população. A culpa não é do aplicativo e nem dos taxistas, mas do sistema de transportes da cidade, o qual ignorou toda essas mudanças sociológicas, tecnológicas e mercadológicas. Não devemos aplicar modelos de regulamentação de uma economia antiga, o qual foi criado a partir de determinadas características passadas para um novo tipo de economia, o qual como vimos anteriormente no artigo, é resultado de uma série de novas mudanças e características. Se formos falar de insegurança e ilegalidade, podemos citar a falta de prudência por parte de uma grande maioria de motoristas de ônibus das grandes cidades, as superlotações e os estados precários de algumas vans do transporte alternativo.

De um lado o Uber contribui para o trânsito da cidade, formando diversos microempreendedores e do outro lado, rompe com o mercado dos taxistas, causando desemprego no segmento. A questão da quebra do mercado de taxi é resultado de uma evolução e inovação de mercado. Assim como a chegada dos computadores no mundo corporativo e das máquinas nas indústrias deixaram milhares de desempregados no mundo todo, a economia colaborativa propõe um tipo de inovação que quebra muitos mercados, a chamada inovação disruptiva. É interessante saber os tipos de inovações que existem. Que no caso, temos dois tipos: as sustentadoras e as disruptivas.

Segundo Clayton Christensen, a inovação sustentadora é uma tecnologia que resulta em um produto ou serviço melhor. Já a disruptiva traz inicialmente uma quebra, uma ruptura em relação ao modo como o mercado faz a sua avaliação de determinado produto e serviço, fazendo com que um novo conjunto de atributos permitam ao produto ser usado de uma maneira diferente dos que existiam antes.

Essa ruptura de mercado é característica da economia colaborativa. Sempre quando acontece alguma inovação disruptiva, uma parcela do mercado quebra e/ou se sente ameaçada. E por causar justamente essa quebra e criar um novo modelo de mercado, os consumidores ficam inicialmente com receio de usar. O receio é normal, faz parte da digestão da disrupção. Tínhamos receio de comprar pela internet, antes de existir os bancos, as pessoas guardavam as economias da família dentro de cofres na própria casa. Quando os bancos surgiram, viabilizando a virtualização do dinheiro, muitas famílias ficaram receosas e hoje todos não pensam duas vezes em abrir uma conta para segurar as finanças. Tinha-se receio de deixar todo o dinheiro de uma família em bancos, tinha-se receio de deixar arquivos nas nuvens. Porém, hoje, com o amadurecimento do uso e por sistemas de reputação, perde-se o medo.

Alguns encaram como algo negativo pelo desemprego, mas a longo prazo representa uma infinidade de ganhou para a população como um todo, como foi o caso do surgimento dos carros, das máquinas, do fordismo, dos computadores e do próprio Whatsapp, que quebrou os SMS’s. Por isso é essencial para os empreendedores e profissionais entenderem as mudanças em todas as esferas da sociedade: sociais, políticas e econômicas. Carros autônomos por exemplo, trarão mudanças radicais na forma como enxergamos o transporte hoje. Certamente vão causar desemprego. Enquanto as inovações disruptivas destroem mercados, ao mesmo tempo criam novas indústrias inteiras.

Segundo pesquisas publicadas em artigo no site medium, Elon Musk, CEO da Tesla Motors, diz que os carros da empresa serão capazes de autopilotagem por 90% do tempo a partir de 2015. Empresas como a Google e a Tesla preveem veículos totalmente autônomos no mercado a partir de 2020, onde poderemos, literalmente, entrar no carro, dormir e acordar em nosso destino. Uma pesquisa da Morgan Staley mostra que os carros são dirigidos por apenas 4% do tempo, o que demostra um desperdício em relação ao custo médio anual para manter um, que é de US$ 9 mil. Ou seja, se você dirige menos de 16 mil quilômetros por ano, serviços como o do Uber tornam-se mais econômicos para o consumidor. Já outro estudo da UC-Berkeley mostra que o custo de manutenção de um veículo cai pela metade entre os usuários que compartilham carona. Recentemente, Travis Kalanick, CEO da Uber, declarou que vai substituir gradativamente todos os seus motoristas por carros autônomos.

Segundo estudo da Columbia University publicada ainda no mesmo artigo, o Uber conseguiria substituir todos os taxis de Nova York com uma frota de 9 mil carros autônomos e os passageiros teriam uma média de espera de 36 segundos para um passeio de 50 centavos de dólar a cada 1,6 km. A substituição de todos os 171 mil táxis dos Estados Unidos tem avaliação de US$ 41 bilhões, mas com o custo de US$ 25 mil por carro, o projeto custaria apenas US$ 4,3 bilhões para o Uber, tornando-se viável. Com os carros autônomos, não haveria a necessidade de estacionar. A procura por vaga corresponde a 30% do tráfego da cidade. Com esse cenário não muito distante, a indústria automobilística irá sofrer grande queda com as inovações disruptivas. É interessante observar o porquê da ameaça, da polêmica, do receio, mas entender que nada acontece de uma hora para outra. Tudo é resultado de uma série de evoluções. As marcas ameaçadas pelos novos modelos têm tempo para se adaptarem, basta estarem atentos as mudanças sociológicas, tecnológicas, políticas e econômicas.

A economia colaborativa vem apresentando sinais embrionários há algum tempo e hoje, cada vez mais, presenciamos empresas que driblaram a crise e estão recebendo altos investimentos a partir do modelo de economia colaborativa. Segundo a consultoria PwC, esse novo modelo pode chegar a faturar cerca de US$ 335 bilhões até 2025. Os números são incontestáveis. O Airbnb, em 2010, possuía 50 mil quartos ou apartamentos disponíveis e em 2014 já eram mais de 550 mil. O Uber teve aumento de 6000% (6 mil) em 5 anos.

No Brasil, já temos novas empresas com modelos colaborativos e sistemas de reputação modernos e eficientes como a Fleety, que viabiliza compartilhamento de veículos entre pessoas, a Tem Açúcar, plataforma de compartilhamento de objetos, a DogHero, que oferece pessoas para ficarem um tempo com o seu cachorro em caso de viagem, por exemplo. O BoraJunto, aplicativo para dividir táxis e corridas, o Bliive, o qual você troca seu tempo para ensinar uma pessoa algum assunto que domina em troca de outro aprendizado e o Cabe na Mala, onde as pessoas oferecem espaço na mala para trazer um produto do exterior.

Grandes empresas já começaram também a olhar com bons olhos para modelos colaborativos. Que é o caso do Itaú e da Amazon. Segundo fontes do Wall Street Journal, a Amazon pode começar a contratar pessoas comuns para fazer entregas. Em 2014, a Amazon testou também um modelo de entrega que utilizava motoristas do Uber. Já o Itaú, a implementação do sistema das bicicletas laranjas se tornou um case de sucesso, o qual no início, muitos tinham receio e achavam que muitas bicicletas seriam roubadas.

Colaboração e reputação como um passo evolutivo

A economia colaborativa como vimos, não é algo que podemos escolher ou simplesmente pular. É uma evolução, um reflexo de mudanças sociológicas, políticas, econômicas e tecnológicas. Não devemos utilizar leis de um modelo econômico antigo para julgar um novo modelo com uma proposta totalmente diferente. As empresas precisam se adaptar. Vale lembrar da batalha contra o download de músicas ilegais do Napster e dos arquivos do PirateBay. Segundo o Instituto Africano de Governança e Desenvolvimento, a difusão de arquivos e conhecimentos pela pirataria contribuiu para a queda do analfabetismo de países africanos. A questão é dos governos e empresas tradicionais se regularem aos novos moldes. A regulamentação tem que existir sim, mas com novas métricas, como foi o caso da Netflix e Spotify, que oferecendo filmes e músicas originais com um custo justo e acessível, conseguiram reformular uma indústria que estava falida por querer bater de frente com as evoluções do mercado.

Durante anos, a indústria fonográfica tentou regulamentar os sites de download de músicas e filmes piratas através dos moldes antigos (como os taxistas querem fazer com o Uber). Essa batalha, a qual ignorava todo o contexto de avanços tecnológicos e mudanças sociológicas, resultou em uma queda de 52% das vendas. Quando a indústria fonográfica passou a entender o novo contexto tecnológico, sociológico e comportamental dos usuários, criou sistemas para se reinventar, que foi o caso da tecnologia por streaming. Os serviços de streaming, segundo dados da RIAA (Recording Industry, Association of America), já ultrapassou em vendas o mercado de CD’s, faturando US$ 1,87 bilhões em 2014.

Já o Spotify, anunciou no Fórum Tecnológico em Las Palmas, na Espanha, o faturamento de US$ 2,63 bilhões para indústria fonográfica. O Spotify direciona 70% dos ganhos para as gravadoras e artistas e hoje conta com 60 milhões de usuários ativos.

De acordo com analistas da FBR Capital Markets, a Netflix pode superar a audiência das grandes redes de televisão dos Estados Unidos até o final de 2016. Com crescimento de 40% ao ano, a Netflix possui 62 milhões de assinaturas no mundo todo. Segundo pesquisa realizada pela FBR e a ClearVoice Research, a empresa pode ganhar 174 milhões de assinantes até 2020 e 57% dos entrevistados preferem pagar pelo serviço de streaming do que pagar canais de televisão. As duas empresas são exemplos de como é necessário regulamentar através de novas métricas e como mercados antigos podem se reinventar. Os downloads de músicas e filmes ilegais não sumiram, mas com plataformas mais acessíveis e justas, as pessoas preferem consumir os conteúdos originais. As novas métricas encontradas pela indústria fonográfica servem de exemplo para o caso Uber X Taxis.

Uber, Airbnb, Spotify e Netflix são somente o começo desse novo tipo de capitalismo. A base da economia colaborativa é vender o mesmo produto ou serviço diversas vezes, sem a posse, desmaterializando o consumo, ao contrário do acúmulo de bens do capitalismo tradicional. O consumo colaborativo sempre existiu, seja entre amigos ou famílias. Hoje, com a difusão tecnológica e modernos sistemas de reputação para gerar confiança, vemos diversos setores econômicos absorvendo o novo modelo e superando crises financeiras.

A economia colaborativa torna pessoas microempreendedoras, possibilita pessoas a ganharem dinheiro e a economizarem a partir de seus ativos. Gera conexões entre estranhos, resgatando o caráter humano. Dialoga com o marketing 3.0, que deixa de tratar as pessoas como consumidores e trata como seres humanos. Segundo Rachel Botsman, estamos no início de uma revolução de colaboração que será tão significativa quanto foi a revolução industrial e enquanto no século XX, a invenção do crédito transformou o nosso sistema de consumo, no século XXI, as novas redes de confiança e o capital de reputação vão reinventar a forma com que pensamos sobre riqueza, mercados, poder e identidade pessoal de uma forma que ainda nem conseguimos imaginar.

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Gabriel Dias

Redator publicitário, colunista, estrategista e consultor de marcas. Enxerga o que tem de melhor nas pessoas. Acredita no poder das relações humanas, da empatia e do sorriso. Apaixonado por Branding e por dança de salão.