Quando eu tinha uns 12 pra 13 anos, a internet fervilhava de histórias. A gente escrevia fanfictions sobre livros, séries, animes ou qualquer coisa da qual fôssemos fãs.

Vi crescer em frente ao computador pessoas que, pelo menos num momento, experimentaram escrever por puro prazer. Não raro foram parar em outras áreas criativas. Mesmo quem não, continua leitor voraz. Outros ainda fizeram da escrita seu voto de fé, não importa como paguem as contas, não importa se ou quanto tenham publicado.

Foi uma das coisas mais legais que presenciei na internet. Num mundo ideal, seríamos todos artistas. Mesmo que esse não fosse o nosso ganha pão. Mesmo que ninguém além da sua mãe visse os seus desenhos ou que só o namorado lhe aguentasse ao violão. Ou que não existisse nem a mãe nem o namorado. Só você e a música. Você e os lápis de cor ou a caneta nanquim.

Young-ha Kim, escritor coreano, pede: sejamos artistas, mesmo amadores. Agora.

A discussão, no entanto, não para por aí. Lembro de ter lido dia desses que J. K. Rowling, autora da série Harry Potter, processou o bibliotecário e fã Steven Vander Ark, autor de “The Harry Potter Lexicon”. Antes de sair em livro, quando só estava disponível na internet, o trabalho dele recebeu elogios da própria Rowling. Foi só Vander Ark ganhar um dinheirinho que Rowling mudou de ideia. Os direitos são dela.

Mas a quem pertence uma ideia?

Seth Goldin pede, num artigo publicado no blog do TED: “Por favor, não roube meu carro. Se você sair dirigindo, não vou tê-lo mais. (…) Mas as minhas ideias? Claro, por favor, leve”. É a diferença entre posse e acesso.

Existe quem diga que tudo é remix.

E falo disso, claro, sem lembrar da semelhança do personagem de Rowling e um certo Timothy Hunter: garoto inglês que pode se tornar o maior mago do mundo. Tim é moreno, usa óculos e tem uma coruja de estimação. É o protagonista dos “Livros da Magia”, que começou como série de HQ escrita por Neil Gaiman para a DC, em quatro volumes – cada um desenhado por um artista diferente.

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Gaiman, espirituoso que só ele, disse não acreditar em plágio. O arquétipo do jovem feiticeiro é comum na Literatura, justificou.

Mas e se for plágio – como entendemos plágio? E por que isso é um problema? Mesmo se ela catou um elemento aqui e outro ali, a história é completamente diferente.

Se a peça que faltava ainda não parecer óbvia, Johanna Blakley deixa bem claro..

A gente costuma acreditar que o que é meu não pode ser seu. Que patentes protegem inventores, quando na realidade elas asseguram os rumos que as inovações vão tomar. Não existe nada no conceito de “possuir uma ideia” que aumente a produtividade das áreas criativas.

Ser criativo nada mais é do que estabelecer conexões entre as coisas.

Talvez um dia, um cara qualquer – magro, com cabelos bagunçados e óculos de aro redondo – escolha tomar uma pílula azul, apresentada por uma mulher suspeita num beco da cidade, um misto de cigana e traficante. Quem sabe ele descubra que tem poderes mágicos e seja obrigado a partir para uma terra  suspensa no céu, protegida por gigantes, e precise se valer de um anel dourado encontrado ao acaso, que lhe permita ficar invisível, pra passar pelo “sistema de segurança”.

E talvez esse seja só o começo da aventura.

Num mundo com mais e mais ideias.

A produtividade hoje, segundo Godin, não é a da linha de produção eficiente. Isso já passou. A produtividade hoje se dá pela conexão.

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Melina França

Odeia suas mini-biografias. Acha que está em construção e ainda não sabe quais as informações mais importantes que uma assinatura deve trazer. Por via das dúvidas, estudou jornalismo e, depois de formada, tomou gosto por marketing, empreendedorismo, branding e o relacionamento entre empresas e cidadãos. Começou, então, a colaborar com a startup de amigos, o Dujour. Já escreveu argumento de histórias em quadrinhos, filmou documentário, foi atriz numa companhia de teatro independente, fez bico de estátua viva e mantém o blog secreto de adolescente onde escrevia histórias de amor.

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