“Só os que se arriscam a ir longe demais são capazes de descobrir o quão longe se pode ir.” Li essa frase de T.S. Eliot introduzindo o capitulo de um livro que ilustra a origem da música com Igor Stravinsky. Lembrei-me de trechos do livro enquanto assistia a 57ª edição do Grammy. – o “Oscar” da música; o maior e mais prestigioso prêmio da indústria musical internacional, entregue anualmente pela National Academy of Recording Arts and Sciences dos Estados Unidos. Fez-me pensar no posicionamento do marketing cultural, com as influencias que este veículo de comunicação pode gerar, em especial, a música (como exemplifiquei no artigo “Marketing Musical: como aplicar o marketing no mundo da música?”). Existem alguns princípios observados no evento que podem ajudar-nos em nossos planejamentos e estratégias:

CREDIBILIDADE

Os artistas após a indicação já assinam contratos; os ganhadores anunciam novos projetos e o público torna-se mais fiel, e não só aplausos à fidelidade, mas o número de pesquisas, buscas e compras dos singles e álbuns ganhadores crescem exponencialmente. É impresso ao telespectador uma palavra que já usei em alguns textos: confiança. O princípio é simples: se tal cantor foi digno e honrado em receber o prêmio máximo da música, porque não conhecê-lo melhor? Essa impressão, que uma vez sutil, torna-se como uma experiência nova – porque mesmo que seu favoritismo não corresponda à lista de indicados ou ganhadores, sua visão em relação ao artista, muda. Os patrocínios e distribuição aumentam. Ali, identidades são formadas; imagens, construídas.

VISÃO

O evento vai muito além de “simples” premiações. Existe o mercado pós Grammy. É uma estratégia largamente utilizada por empresas e até instituições em todo o mundo. Vale analisar as variáveis contemporâneas: o marketing de incentivo à cultura, uma alternativa economicamente rentável e socialmente responsável. Sabe-se que o termo “cultura” abrange todo o modo de vida de um povo: sua estrutura social, crenças, costumes, linguagem, artes, moral e direito, ou seja, leis que traduzem ações, sentimentos e modo de pensar de uma comunidade (MUYLAERT: 1993) “O marketing cultural, última fase dessa sequência e modalidade predominante da época atual, é assim uma variante contemporânea de um protecionismo de longa prática histórica, que já teve como patronos diversos setores e organizações da sociedade.” (VAZ, Gil Nuno: 1995; p.216) – e para mais definições, indico a leitura da minha colega do Ideia, Hayane Souza, “Porque investir em Marketing Cultural?” É ditado para todo o ano, indicadores e influenciadores não só da música, mas moda e comportamento, por exemplo, no Red Carpet (o evento que antecede a premiação, tão significante e importante para a indústria do entretenimento, quanto a própria premiação). O que você tem feito para gerar perpetuação da sua marca no mercado?

MARKETING SOCIAL

Na maior noite da indústria da música, o evento escolheu um tom sério com uma forte mensagem contra a violência doméstica enviada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em vídeo, pelo depoimento de um sobrevivente e por uma performance de Katy Perry. Entenda que as políticas de responsabilidade social serão vistas como uma atividade em favor da sociedade, apresentando ganhos semelhantes aos contabilizados com publicidade e propaganda. Ou seja, a política de responsabilidade social, além de um meio de favorecer o meio ambiente e a comunidade circunscrita à empresa, torna-se um instrumento mercadológico que faz com que as empresas “que fazem o bem” tenham maior visibilidade no mercado e, diante disso, possam vender mais e maximizar os lucros. A responsabilidade social deve ser considerada um investimento e não um gasto, e ela pode ser traduzida como uma evolução em busca da excelência. Investir em cultura é contribuir para o desenvolvimento da sociedade. Procure estimular a consciência social e focar na causa e esteja atento ao público evitando informações dissonantes (Kotler,1978 p 299).

VULNERABILIDADE, FORÇA E HUMANIZAÇÃO

Sim, precisamos nos arriscar e nos permitir em descobrir até onde podemos ir. Sam Smith, o artista da noite, indicado em seis categorias e levando quatro gramofones para casa, destacou-se como revelação e seu poder de influência em todo o mundo. “Antes de gravar esse álbum, eu estava fazendo de tudo para tentar conseguir que a minha música fosse ouvida”, disse Smith. “Tentei perder peso e fazia uma música horrível. Foi só quando comecei a ser eu mesmo que a música começou a fluir e as pessoas começaram a ouvir”. A noite terminou com uma mensagem idílica, cantada por Beyoncé (“Precious Lord, Take My Hand”, música gospel que faz parte da trilha sonora do filme “Selma”, concorrendo ao Oscar 2015), como mais uma boa lição e sacada de oportunidades de marketing do evento, linkando para a próxima premiação, já introduzindo debates contra o racismo e a liberdade de expressão.

A ciência descreve nosso cérebro em termos físicos e se esquece da matéria de que são feitos os sonhos. Ao exprimir nossa experiência real, o artista recorda-nos que a ciência é incompleta e não explica a imaterialidade da consciência. A cultura tem a função de formar cidadãos, imagine o impacto que você pode gerar? Mesmo conversando sobre alguns conceitos e ilustrando-os com o Grammy, fica meu apelo à reflexão incisiva sobre sua criatividade – não só na música -, e que ela possa se tornar uma obra visionária, atraente, única e inspiradora. Porque em tudo, precisa haver significados.

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Essa coisa de definir coisas... Escritor, professor, colunista e curioso. Produzindo o terceiro e-book. Licenciando em Filosofia, com foco nas artes e comportamento. Não vive sem séries - e dramas. Melancólico e péssimo de cozinha. O 2º livro #AConstrucaoDoOlhar PDF free aqui ó: bit.ly/aconstrucao | Vídeos sobre os livros em youtube.com/user/arthiebarbosa