O ano se inicia e todo mundo aproveita para falar sobre os planos para o futuro. Infelizmente, não tenho boas notícias: se você resistir a mudanças, provavelmente sua empresa vai deixar de existir.

Ninguém duvida que o mundo tem mudado rápido demais. Parece lugar comum, mas aparentemente alguns executivos ainda não entenderam. Deve ser bem complicado pensar que seus negócios milionários de repente possam se tornar obsoletos e perder mercado. Mesmo assim, acontece com um monte de gente, todos os dias. Blockbuster, Kodak e Firestone são só alguns exemplos.

Em contrapartida, as maiores empresas de hoje são relativamente jovens. Isso implica dizer que algumas das grandes marcas do futuro talvez nem tenham sido criadas ainda. Ou quem sabe estejam lutando para se estabilizar. Elas nascem em um contexto completamente diferente daquelas outras criadas há 10, 20 anos. Um contexto que muitas gigantes parecem ignorar.

Para sobreviver, precisamos aprender a lidar com a inconstância do mundo. Os budistas sabem disso há tempos. Roselinde Torres, expert em liderança, também.

 A questão nem sempre é paralisia. Na verdade, os líderes costumam identificar cedo as ameaças, analisar as implicações para os negócios que representam e, então, agir. O problema é que agem errado.

Donald Sull, professor do MIT e da London Business School, chama isso de “inércia ativa”. Apesar de normalmente associada à falta de movimento, a física entende que, por inércia, um corpo em movimento tende a permanecer em sua trajetória. Só não o faz por forças como o atrito. Nas organizações, a inércia ativa diz respeito à tendência de seguir padrões pré-estabelecidos de comportamento, mesmo quando frente a mudanças externas dramáticas.

Gosto de citar o caso do Pirate Bay (RIP), sobre o qual já escrevi. Em 2009, os criadores do site – um dos maiores em compartilhamento de arquivos – foram condenados por violação de direitos autorais. Quando o último apelo legal foi negado, em fevereiro de 2012, foram sentenciados a pagar US$ 6,8 milhões, sem falar nos quatro a doze meses de cadeia. Peter Sunde, um deles, foi o primeiro a se pronunciar dizendo não estar surpreso e pedindo aos seus seguidores que criassem novas tecnologias para driblar o sistema.

A notícia sobre o caso em vários portais de economia só reavivam a discussão, mas ela estava aí no caso do Megaupload, do Wikileaks, do ativismo virtual do Anonymous, no suicídio prematuro de Aaron Swartz (sobre ele, vale a leitura dessa coluna da Eliane Brum). Esses caras estão construindo uma nova perspectiva e delineando novos rumos para a economia. Dificilmente vão ser parados.

De fato, o fim das atividades do Pirate Bay, em 9 de dezembro de 2014, teve pouco impacto nos downloads ilegais. O motivo você já deve adivinhar. As pessoas seguiram o conselho de Sunde. O problema é que custa mais se adaptar do que tentar sobreviver com base em um modelo arcaico, especialmente quando há altos executivos com altos salários e pouca disposição para desagradar acionistas.

Se tudo o que as grandes corporações fazem com os ditos piratas é cobrar multas, significa que não estão preparados para lidar com a internet. Embora devessem.

Para o inglês Matt Mason, que já trabalhou como economista e hoje é diretor executivo de marketing do BitTorrent, esse é um caminho sem volta. Em seu livro “The pirate’s dilema“, ele fala sobre como os movimentos contra-culturais (e mais precisamente a pirataria) ajudam o capitalismo a se renovar. Explica que a indústria continua movimentando capital, mas de um jeito diferente.

Se as pessoas gastam menos com cds, ainda são apaixonadas por música e estão dispostas a investir nela. O que os jovens propõem, de tempos em tempos, são novas abordagens para os seus problemas, novas formas de suprirem suas necessidades (ouvir música, por exemplo). Se a ideia é boa, pega.

As gravadoras deviam, então, se voltar para e não contra esses mesmos jovens, mas elas insistem em processar seus próprios usuários ao invés de competir com a pirataria digital. O iTunes só foi bem-sucedido por isso. Se você é uma gravadora e decide não disponibilizar MP3, abre espaço para que outra empresa (a Apple, no caso) o faça. E agregue algo a mais: o iTunes não vende apenas música, mas também segurança, facilidade e conforto.

Se também é possível baixar filmes, por que as pessoas continuam indo ao cinema? Elas querem a experiência completa. Meus amigos falam o tempo todo sobre os filmes que são “para serem vistos no cinema”. Mas para valer essa tal experiência completa, os produtores precisam oferecer algo de qualidade, não mais do mesmo.

Isso não vem de agora. Mason explica que, quando inventaram o fonógrafo, os músicos que pagavam as contas tocando ao vivo fizeram a mesma reclamação que as gravadoras: vão acabar com a música. No começo, os discos eram distribuídos sem que os artistas recebessem nada, mas tudo mudou quando criou-se um sistema de royalties. A indústria encontrou um meio de se desenvolver.

O mesmo aconteceu com o cinema. Para utilizar a tecnologia para produção cinematográfica criada por Thomas Edison, era preciso pagar uma licença. Cineastas “rebeldes” saíram de Nova York e foram para o oeste, onde abriram os primeiros estúdios de Hollywood. Entre esses caras estava William Fox, fundador da Fox Filmes.

Agora, esses mesmos empreendedores contratam especialistas para resolver um problema parecido. Acontece que, mesmo se livrando da ideia de que processos e a derrubada dos sites de compartilhamento são a solução, a má reputação por ter tomado essas atitudes deve continuar. Mason lembra de um tempo em que as pessoas eram apaixonadas pelas gravadoras (Motown, Atlantic) – o que não existe mais.

Presos aos modelos que lhes trouxeram sucesso no passado, os líderes de mercado, ao tentar sair de um buraco, cavam mais fundo. O pensamento fresco e livre que possibilitou uma fórmula competitiva fatalmente vira status quo. Os valores, antes orgulhosamente expostos na entrada da empresa, se confinam na sala da direção. Deixam de ser filosofia. Viram dogma.

A mudança é lenta e as soluções ainda não estão tão bem desenhadas, mas alguns segmentos começam a fazer o dever de casa. Quando lançou a série Lost, a Disney/ABC resolveu disponibilizar os episódios gratuitamente em seu site. Ao invés de duelar com a distribuição pirata, competiu com ela.

Por isso, se você ocupa um cargo de gerência em uma “empresa tradicional”, repita comigo: autenticidade é mais importante que autoridade (especialmente na relação com seus consumidores). Autenticidade, aliás, é uma ótima meta a ser perseguida em 2015.

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Melina França

Odeia suas mini-biografias. Acha que está em construção e ainda não sabe quais as informações mais importantes que uma assinatura deve trazer. Por via das dúvidas, estudou jornalismo e, depois de formada, tomou gosto por marketing, empreendedorismo, branding e o relacionamento entre empresas e cidadãos. Começou, então, a colaborar com a startup de amigos, o Dujour. Já escreveu argumento de histórias em quadrinhos, filmou documentário, foi atriz numa companhia de teatro independente, fez bico de estátua viva e mantém o blog secreto de adolescente onde escrevia histórias de amor.

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