De tanto ouvir meu pai me contar histórias, decidi inventar as minhas próprias. Só tinha um problema: ainda não sabia escrever. O medo de não conseguir era tanto que só olhar a rampa pro piso superior da escola, onde as crianças mais velhas estudavam, me dava calafrios. No próximo ano, eu subiria a rampa e teria aulas lá em cima. Significava que aprenderia a ler e escrever. Por enquanto, ditava as histórias pra alguém, que rabiscava aqueles símbolos irreconhecíveis no papel.

Mas não tinha jeito. Por mais bem-intencionados, os adultos sempre perdiam a paciência. Quando terminavam, eu ainda não entendia o que aquele amontoado de letras queria dizer. Guardava as folhas como um tesouro. Mesmo com medo, eu queria aprender.

Meu pai me deu um cartaz com as letras do alfabeto multicoloridas. Primeiro copiei os contornos impressos como numa aula de desenho de observação. Ele gastou um tempo me explicando que “b” com “a” dá “ba”. E assim escrevi minhas primeiras palavras.

Essa, a experiência educativa mais marcante que tive, não aconteceu na escola.

O próprio conceito de sala de aula como conhecemos denota uma estrutura de poder. Os alunos sentados lado a lado. O professor à frente, em pé. Todos seguem o mesmo ritmo. Quem vai mais rápido se sente frustrado. Quem não acompanha é taxado de burro.

O sistema é punitivo. Se você não se sair bem, talvez precise repetir o ano. Estudamos todo o conteúdo para a prova, e logo depois esquecemos.

É um modelo passivo de aprendizado quando o mundo nos cobra um processamento de informações cada vez mais ativo. A educação como acontece em larga escala mais parece doutrinação, com punições sempre que alguém se desvia do “padrão”. Isso mata, pouco a pouco, nossa criatividade.

Foi o melhor que conseguiram nos tempos de Revolução Industrial, quando um bom trabalhador era sinônimo de um bom executor de funções.

Hoje, faz pouco sentido. O mundo em que vivemos está em constante construção, e nunca as “pessoas normais” tiveram tanto poder. A internet revolucionou a comunicação. Agora, com as impressoras 3D, as inovações invadem o mundo físico.

Segundo alguns teóricos, a energia e os transportes vão ser os próximos radicalmente transformados.

Espera-se soluções criativas, seja você empregado ou esteja à frente do próprio negócio. Infelizmente, nossa educação ainda não nos prepara para isso. Na verdade, o pensamento criativo cai durante os anos.

Peça a uma criança de cinco anos para desenhar um “girafossauro” e ela vai lhe dar uma infinidade de opções do que seria a criatura. Peça o mesmo a um adulto e a resposta vai ser uma risadinha nervosa. Morremos de medo de sermos ridicularizados e o pensamento fica ali, quadradinho, como aprendemos na escola.

Dê um copo a uma criança e ela vai encontrar 100 formas de usá-lo.

No artigo “How many uses are there for a shoe”, Len Brzozwski diz que a maioria dos adultos esgota as possibilidades depois de aproximadamente 10 respostas. Um gênio criativo, por outro lado, conseguiria 100 ou mais.

Os pesquisadores George Land e Beth Jarman, por sua vez, fizeram um teste com grupos de estudantes aos 5, 10 e 15 anos. Os resultados, apresentados no livro “Break Point and Beyond: Mastering the Future Today”, mostram que a escolarização pouco a pouco mina o pensamento divergente.

É como se, quanto mais aprendêssemos sobre o mundo, menos nos sentíssemos livres para testá-lo, desconstruí-lo.

No experimento, 98% das crianças de 5 anos foram considerados gênios criativos. Aos 10 anos, no entanto, esse número caiu para 32%. Aos 15, apenas 10%.

As escolas têm nos ensinado a buscar a resposta certa para dada pergunta: o pensamento convergente. Mas quando esses jovens crescem, espera-se que elas tragam novas ideias, que criem seus próprios projetos e inovem no ambiente de trabalho. Essas qualidades, dizem, fazem um bom líder.

E se eles fossem estimulados, desde cedo, a investigar o mundo por conta própria, sendo autônomos em relação ao seu aprendizado?

Pouco a pouco, profissões deixam de existir enquanto o trabalho que desempenhavam é automatizado. Segundo a Nesta (base de inovação no Reino Unido), 79% da força de trabalho nos Estados Unidos precisa passar a ser altamente criativa. Agora.

A boa notícia é que o pensamento divergente pode ser estimulado, não importa a idade.

Preste atenção aos detalhes. Ande por lugares onde nunca foi. Tente uma nova combinação de roupa. Teste como ela lhe faz sentir. Pegue um objeto comum e invente um novo uso pra ele. Pergunte às outras pessoas o que elas veem ali. Anote. Redescubra. Leia poesia. Toque um instrumento, mesmo que não faça ideia das notas certas. Coloque seu cérebro para funcionar além do hábito. Treine seu olhar.

Cursos não formam líderes criativos. O primeiro empreendimento de qualquer um deve ser a própria vida.

Como diria Salman Khan (o nome por trás da Khan Academy, um dos novos modelos em educação que estão surgindo por aí), o mundo é uma escola.

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Melina França

Odeia suas mini-biografias. Acha que está em construção e ainda não sabe quais as informações mais importantes que uma assinatura deve trazer. Por via das dúvidas, estudou jornalismo e, depois de formada, tomou gosto por marketing, empreendedorismo, branding e o relacionamento entre empresas e cidadãos. Começou, então, a colaborar com a startup de amigos, o Dujour. Já escreveu argumento de histórias em quadrinhos, filmou documentário, foi atriz numa companhia de teatro independente, fez bico de estátua viva e mantém o blog secreto de adolescente onde escrevia histórias de amor.

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