O mundo anda sem foco e isso é um fato muito fácil de ser observado. As pessoas, cada vez mais, caminham olhando para baixo, para as telas dos seus telefones inteligentes. Deslizando o dedo, para cima e para baixo, lendo centenas de palavras por minuto, vendo milhares de fotos por hora, sem muita atenção, às vezes, simplesmente por hábito. Sentam para almoçar ou tomar um café e não olham para os lados. Não observam o que acontece ao seu redor. Não se olham. Olham para baixo. Não para o prato, mas para as telas dos celulares estacionados no colo ou sobre a mesa. Dirigem nos trânsitos cada vez mais lentos, olhando para baixo, não para o câmbio, ou para os pedais, ou mesmo para o dial sintonizando algo agradável. Para baixo. Para o device encaixado entre as pernas, aceso, cheio de sinais sonoros desagradáveis, em uma estranha conversa, sem sentido devido a pouca e quase impossível atenção, que é pessimamente dividida entre o cálculo perigoso para não encostar no carro da frente e o teclado virtual que não permite que as palavras e frases tenham a mínima coesão.

Dia 12 de novembro de 2014 foi um dia histórico, um dia que me empolguei com uma notícia vinda – e tuitada – do espaço, tão sensacional e incrível quanto a passagem do cometa Halley em 86. Lógico que não irei comparar com a chegada à lua porque não imagino qual tenha sido a sensação e também porque o contexto da comunicação na época era bem diferente. Muita gente nem ficou sabendo e poucos acreditaram.

Voltando ao foco do texto, dia 12 as pessoas não olharam para o céu. Mais uma vez, olharam para baixo. Olharam para a bunda da Kim Kardashian. Digitalizada em suas telas, mas ela estava ali, nas mídias e redes sociais, nas colunas, nos sites, era a bunda de uma Kardashian. E isso, aparentemente, teve mais foco e importância para a maioria que o pouso do módulo Philae, da sonda Rosetta, uma máquina criada pelos homens, que viajou por 10 anos e se tornou a primeira espaçonave a fazer um pouso suave em um cometa.

Do ponto de vista científico, isso muda muita coisa e talvez mude tudo. Em médio e longo prazo iremos colher frutos importantes para entendermos muitas teorias e sanarmos muitas dúvidas sobre nossa origem. Em outro ponto de vista, o da comunicação, também deveria mudar muita coisa. Falo de sonhos. Sobre voltar a olhar para o céu e imaginar que estamos, efetivamente e com possibilidade de acompanhamento em tempo real, explorando, descobrindo e entendendo o universo. É a chance de olhar para cima novamente e sonhar, esperar notícias, mensagens e eventos do desconhecido. É a chance de sermos curiosos, criativos, escritores, poetas, filósofos e astronautas. Esse tipo de chance é como um cometa, que passa de tempos em tempos, com intervalos gigantes, e exige que o homem pegue carona em sua cauda, simplesmente para poder voltar a sonhar.

 

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Thiago Garcia

Diretor de Criação at Virttus Propaganda
Jornalista pela UFRN é diretor de criação da agência Virttus Propaganda e acumula 14 anos de experiência no mercado publicitário. Possui MBA em marketing estratégico e pós-graduacão em Docência no Ensino Superior. Professor da Universidade Potiguar, nos cursos de Comunicação social, além de ser docente nos cursos de pós-graduação Planejamento Estratégico em Comunicação, Assessoria de Imprensa e MBA em Mídias Sociais.