“No campo da observação, o acaso só favorece a mente preparada”
(Louis Pasteur)

Sou um entusiasta por relacionar conceitos, muitas vezes improváveis, misturar tudo e tirar dali novas percepções, estratégias e novos entendimentos. Gosto disso, porque me possibilita entender conceitos além dos livros, observar experiências com novos olhares e enxergar um mundo de coisas incríveis. (Aliás, já começo aqui fazendo disso um conselho para todas as horas.) Este artigo surgiu de um desses momentos. Pois, nos últimos meses, me deparei com uma palavrinha estranha e (para muitos, desconhecida) que tomou conta das minhas reflexões de lá pra cá: serendipidade. Um conceito muito aplicado à ciência sobre o processo de inovação (e muito útil em todas as áreas) e que trago hoje para você.

Serendipidade? Mas que bicho é esse? Vou lhe contar uma historinha antiga muito interessante sobre a origem dessa palavra.

O termo surgiu da palavra inglesa serendipity, criada pelo romancista inglês Horace Walpole, lá em 1754. Numa carta destinada ao seu amigo diplomata Horace Mann, ele contava sobre a impressionante história persa, “Os Três Príncipes de Serendip”, que leu quando ainda era criança. O conto retratava as aventuras de três príncipes da Ilha Serendip (atual Sri Lanka) que viviam fazendo valiosas descobertas de forma inesperada. Em um dos casos da história, o rei de Serendip, em seu leito de morte chamou os filhos dizendo que além de lhes dar seu vasto reino, deixaria um grande tesouro enterrado próximo à superfície. Após a morte do pai, os príncipes reuniram todos os homens do reino para cavar e revolver o solo de todo o país e após anos e anos, não encontraram nenhum tesouro. Para a surpresa de todos, as terras do reino tinham sido tão revolvidas, que as colheitas dos anos seguintes se tornaram as maiores de toda a história. Pela capacidade de observação e sagacidade, os príncipes de Serendip conquistaram grandes tesouros, sem que especificamente estivessem buscando por eles. A essa capacidade dos príncipes, Walpole deu o nome serendipy: “descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso”.

Descobertas furtivas por todos os lados

No meu caso, essa palavrinha complicada surgiu em uma conversa de boteco (aliás, uma fonte furtiva de conhecimento!) com um sagaz amigo pesquisador, que na época terminava o mestrado em botânica. Ele me dizia sobre como somos, por muitas vezes, agraciados por esse “aparente acaso” – buscando uma coisa e encontrando outra, muitas vezes bem mais interessante. Nas ciências, por exemplo, o termo já trouxe grandes descobertas que mudaram a história como o polietileno (garrafas PET), o processo de pasteurização, a borracha vulcanizada (dos pneus e botas), o raios-X, a aspirina, o teflon, o viagra, o post-it e uma lista interminável de coisas que hoje facilitam – e muito – a nossa vida. O mais interessante desse conceito de serendipidade é entender que, de alguma forma, ela acontece no seu dia a dia, mesmo que você ainda não perceba isso. Você já parou para pensar quantas coisas que você ouviu, sentiu ou viu no seu ambiente “num acaso” e que, depois, foram transformadas em oportunidades, estratégias diferentes ou até mesmo em produtos? Desde que comecei a entender um pouco mais sobre esse instigante conceito, passei a observar que essa tal serendipidade sempre dá as caras por todos os lados; seja na criação de produtos, na estratégia, no mundo dos negócios ou na ciência.

O conhecimento está em tudo o que existe

Para entender melhor como acontece a serendipidade, quero trazer outro conceito muito interessante. Quando falamos em conhecimento, geralmente, acabamos traduzindo como aquilo que adquirimos, que sabemos (o conhecimento adquirido), que aprendemos de alguma forma, não é mesmo? Mas existe outro tipo de conhecimento que não estamos acostumados a enxergar. O conhecimento potencial.

Resumidamente, em todas as coisas no universo existe o conhecimento potencial, aquilo que se pode observar e transformar em conhecimento adquirido. Os elementos, os fenômenos da natureza e as experiências que você vive trazem esse potencial de se tornar algo interessante/valioso mesmo antes de nós entendermos isso. Aí, o que fazemos é transformar esse conhecimento potencial (que já existe) em coisas e percepções úteis para a nossa vida. O conhecimento potencial, de uma forma ou de outra, sempre esteve aqui, ao nosso redor. Agora, o ponto chave de tudo isso – diretamente ligado à serendipidade – é que, somente algumas pessoas, por estarem preparadas para absorvê-lo (transformar potencial em algo útil), conseguem se apropriar dele.

Para você entender melhor como funciona tudo isso, a história nos traz alguns exemplos de serendipidade.

Um dos mais famosos casos de serendipidade é a descoberta da penicilina – o primeiro antibiótico da história. Seu criador, o pesquisador do Hospital St Mary, Alexander Fleming, estudou o desenvolvimento de um antibiótico por anos sem sucesso e foi descobrir, “por aparente acaso”, a resposta que faltava. Ele saiu de férias por um tempo e, por esquecimento, deixou uma de suas culturas da bactéria estafilococos sobre a mesa. Quando retornou, viu que ela tinha sido contaminada por mofo (fungo). Natural seria descartar o experimento contaminado, mas ele observou que havia nas placas um círculo transparente em torno do mofo, separando-o das bactérias. E foi essa observação que levou Fleming a perceber que aquele fungo produzia uma eficiente substância bactericida, a penicilina. Para qualquer outra pessoa, a contaminação das placas poderia ter sido um acontecimento como outro qualquer. A diferença é que Fleming estava preparado. Ele tinha a sagacidade e o conhecimento necessários para fazer de um simples acaso, uma oportunidade. Com sua descoberta, o londrino salvou milhões de pessoas no mundo inteiro, e de quebra ainda levou o Prêmio Nobel em 1944.

O micro-ondas é mais um incrível caso de serendipidade. Essa caixinha mágica, que veio para revolucionar a cozinha, surgiu de uma observação sagaz do engenheiro autodidata Percy Spencer. Na época, ele trabalhava em um conjunto de radares e em um de seus testes, Spencer percebeu que a barrinha de chocolate em seu bolso havia derretido. Muita gente antes dele já sabia que as micro-ondas emitidas por esses equipamentos aqueciam as coisas, mas foi o engenheiro autodidata que vislumbrou o uso comercial desse “acaso”, transformando a oportunidade em um equipamento para aquecer alimentos de forma rápida.

É preciso estar preparado

Esses dois exemplos de inovação nos mostra que é preciso estar pronto para ser beneficiado pelo acaso e essa é a única maneira de transformar observações em algo valioso. Além da sagacidade (que é fundamental para unir fatos e chegar a uma conclusão valiosa), tanto Fleming, quanto Spencer tinham o conhecimento necessário, estavam preparados para conseguir enxergar simples acasos de maneira diferente, tirando dali produtos inovadores. Do que adianta encontrar algo novo se não somos capazes de tirar proveito disso? O grande barato das descobertas só acontece quando conseguimos relacionar o que sabemos com o que acabamos de encontrar. Daí surge a inovação e coisas incríveis são criadas.

A serendipidade é um conceito incrível que pode transformar simples observações do seu dia a dia em grandes descobertas. E o livro “Efeito Medici”, de Frans Jhonsson traz uma fórmula para utilizar a serendipidade de forma sistemática: “É ao conseguir cruzar campos, disciplinas e culturas diferentes que se torna possível combinar conceitos já existentes num grande número de novas ideias extraordinárias”.

Se você prestar atenção em seu ambiente vai perceber a serendipidade acontecendo nos mais diversos níveis. A chave é prestar atenção, se permitir observar e estar preparado (constantemente buscar conhecimento, expandir sua mente, relacionar coisas improváveis) para transformar essa observação em oportunidade.

“Enquanto a excelência de processos exige precisão, consistência, e repetição, a inovação exige variação, fracasso e serendipidade”
(Brian Hindo)

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José de Assis

Consultor de comunicação e endomarketing, tem como motivação diária superar desafios. Apaixonado por pessoas, música e pelo Atlético Mineiro, acredita na geração de ideias como o maior instrumento transformador de uma sociedade.