Sempre vemos por aí conselhos e dicas que incluem o ‘simplificar’ das coisas como uma boa solução. Mas nem sempre simplificar é bom. Tirar aquela palavra que está sobrando no seu texto é diferente de tornar simples a sua abordagem. 

O jornalismo é uma das práticas que mais pede este tipo de discernimento do profissional. É preciso transmitir de forma clara e, sim, o mais direto e simples possível determinada informação, mas ao mesmo tempo é preciso prezar pela relevância, não só do que chega, mas do que se busca também.

Tudo é sempre igual

Uma das principais características do jornalismo atual é o ‘lugar comum’, ou seja, as notícias são replicadas priorizando a velocidade e terminam em divulgar as mesmas notícias e sempre pouco aproveitadas. Nós, leitores, temos um leque de opções para encontrar quase sempre a mesma pauta. Isso quando não nos deparamos com o conteúdo literalmente idêntico em mais de um veículo.

O termo ‘simplificação’ define bem o que tem sido feito com o material jornalístico hoje em dia. As indagações, na maioria das vezes, não são de interesse público e muito menos têm a intenção de despertar alguma reflexão e posicionamento.

O exemplo

A jornalista Sylvia Moretzsohn traz uma reflexão pertinente:

“Agora mesmo, no meio daquela balbúrdia que se instalou em Bangu 1, um dos convidados a um dos Em Cima da Hora foi o pesquisador Ignacio Cano, e, diante da falta de respostas conclusivas, a locutora lhe perguntou: “Mas então, professor, QUAL É A SOLUÇÃO?”. Como se houvesse soluções simples… Este é o problema: a enorme simplificação do mundo, que o jornalismo (este jornalismo, faço questão de ressaltar) opera. Ora, se temos “tempo” para uma interrupção, de alguns minutos que seja, no fluxo “normal” do noticiário, por que insistir na tentativa de respostas “definitivas” que não existem? Por que não aproveitar para levantar algumas dúvidas, ou pelo menos para sugerir que as coisas não são tão simples quanto parecem? […] A simplificação conduz ao círculo vicioso de reiteração do senso comum, que me parece um objetivo claro das empresas de comunicação.”

E aí?

A proposta então é que o jornalismo seja menos definitivo. Não é preciso dar as respostas, mas sim fazer boas questões para instigar a reflexão, para gerar discussão e para que o próprio leitor se posicione de acordo com seus valores.

Isso se aplica também a outras atividades. É precisa parar e pensar nas soluções que buscamos para nossos problemas. Muitas vezes, na busca incessante por uma resposta que exclua todas as nossas dúvidas perdemos etapas essenciais para a formação de uma conclusão mais completa. Etapas são puladas e perde-se parte do suco que podemos extrair do nosso limão.

Ser simples é bom? Economizar tempo é bom? Sim! Mas é preciso controlar a sede de praticidade, agindo consciente do peso de cada decisão e explorando ao máximo cada gole.

Quanto ao jornalismo, se a intenção da mídia e grandes corporações era adormecer os cidadãos, a prática e o consumo líquido é grande colaborador. Por isso, o jornalismo deve se reposicionar e deve se dar o direito da dúvida para provocar respostas. E precisa dar um passo para trás. O jornalismo retrata a vida real e, sendo assim, não é absoluto. Vamos simplificar menos.

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Jussara Coutinho

Jornalista com experiência em e-commerce e mídias digitais. Adora falar sobre comportamento e encontrar pessoas que discordem dela com bons argumentos.

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