Quando eu tinha mais ou menos quatro anos, meus pais me deram um radinho com microfone bastante colorido. Ele se chamava “Meu Primeiro Gradiente” e foi a diversão de muitas crianças durante o início da década de 1990. Para quem não sabe do que eu estou falando, este foi um dos primeiros “brinquedos que realmente funcionavam” lançados na época.

Até aí tudo bem, bastante gente lembra desse gravador-meio-brinquedo. A diferença é que as brincadeiras que vieram dele acabaram me trazendo para o que faço hoje. Antes que alguém pergunte, não trabalho com rádio ou TV. Ainda assim, a comunicação sempre foi uma opção para mim e, sinceramente, não me vejo fazendo outra coisa.

Entretanto, sinto que o mercado de marketing digital – não só no Brasil – está cheio de pessoas que, assim como eu, cairam aqui por acidente. De maneira alguma isso é algo ruim, afinal as experiências mais diversas é que conseguem construir histórias legais a serem contadas. Porém, chega um momento em que só a experiência do mercado não basta.

Acredito que todos nós que estamos aí mexendo com planilhas de mídia online, montando planejamentos de conteúdo para marcas, postando em redes sociais precisamos, uma hora ou outra nos voltar para quem está chegando agora. Digo isso porque sei que o mercado digital pode melhorar muito e isso só depende de quem já está atua.

Universidade e mercado – por que tão longe?

Uma das coisas que mais me intrigam é essa distância tão grande que a universidade tem do mercado hoje em dia. Não posso falar por todos os cursos do Brasil, mas de maneira generalizada, o que temos nas graduações são professores que conhecem excepcionalmente as teorias da comunicação como um todo, mas na hora de mostrar o que está acontecendo no mercado, o digital ainda é tratado como se estivesse dentro de uma grande bolha misteriosa.

De qualquer maneira, não precisa ser assim. É óbvio que nem todo mundo quer ter uma carreira acadêmica e esse gap entre experiência de mercado e teorias de uma sala de aula vai fazer falta lá na frente. Mas qual seria uma forma de trazer o mercado para perto?

Acredito que o primeiro passo é trazer pessoas que atuam no mercado do digital para fazer palestras e workshops dentro da universidade. Formatos assim já acontecem, mas a frequência com que eles acontecem poderia ser muito maior. É muito mais interessante saber de quem já está “na correria” quais são as suas metodologias e se aquilo que foi visto na faculdade ajudou de alguma forma. Pois é, você já deve ter questionado várias vezes “quando você ia usar aquele conteúdo de sala de aula na vida real” – aí está a sua chance.

Tenha orgulho do que faz, mas pare de mistificar o marketing digital

Às vezes fico meio relutante em concordar com a expressão “marketing digital”. É claro que precisamos dar nomes às coisas, mas acredito que o digital nada mais é do que um processo lógico de evolução dos meios de comunicação e da venda dos produtos e serviços já existentes no mercado. Vamos parar para pensar. Estamos em uma indústria que já soma quase vinte anos de existência e ainda a tratamos como a maior das novidades do universo.

É claro que esses nossos quase vinte anos não são nada quando comparamos com o tempo que o marketing tradicional tem de vida, mas acredito que já tivemos tempo o suficiente para explorar o básico e propor metodologias claras e objetivas.

Faz parte disso, também, parar de colocar o tão aclamado “marketing digital” em uma bolha que mistura mistério e altíssimo conhecimento técnico para executar as coisas. Mais uma vez – não entendam errado. Não estou afirmando que o que fazemos pode ser feito por qualquer um a qualquer momento. Estou dizendo que estamos nos aproximando muito daquela “aura de médico ou engenheiro que são intocáveis”, sabem?

Nossas profissões foram desenhadas para facilitar a vida das pessoas no trajeto de compra e identificação com as marcas. Só que muitas vezes preferimos nos gabar sobre “o quão importante o digital é” que nos esquecemos de dar um passo para trás e realmente explicar do que estamos falando para quem está mais perto.

A presença do digital na vida das pessoas deveria ser mais simples para que a nossa entrada em empresas possa ser mais suave e menos “provar que não estamos brincando” até mesmo em grandes corporações, nós profissionais do tal “marketing digital”, somos sempre aqueles que precisam convencer todo o resto da empresa de que merecemos estar ali e que merecemos investimento assim como a área de marketing tradicional.

Ainda somos sempre o mais jovens, os mais descolados, os mais casuais e tatuados das empresas. Inevitavelmente precisaremos nos provar valiosos e entrar no mato abrindo caminho para provar que nossas iniciativas podem dar tanto resultado ou mais resultado do que as outras – e tudo isso com um custo por conversão muito menor. Quando pararmos de mistificar o que fazemos, vão nos olhar de maneira diferente.

Só postar em mídias sociais não é fazer marketing digital

A porta de entrada de muitas pessoas para o mundo do digital acontece pelas redes sociais. Até aí nada de errado – foi este caminho que eu tomei quando decidi sair para sempre do jornalismo para “vender a alma” para o marketing. O problema está em acreditar que gerir perfis de redes sociais é fazer o marketing digital por si só.

Quando falamos em marketing estamos obrigatoriamente associando qualquer uma das nossas ações a um retorno financeiro – seja ele imediato ou de longo prazo. Então se você só posta, mas não sabe o quanto isso converte em vendas, não está fazendo marketing digital, está só postando “de graça”.

Para que não restem dúvidas, o marketing digital é composto por inúmeras camadas de processos e conhecimentos que vieram dos meios tradicionais e foram mais detalhados para a nossa realidade. Em outras palavras, o marketing digital envolve: pesquisa de mercado, gestão de CRM, testes A/B de mensagens, relacionamento com o cliente, canais de conteúdo (é aqui que acontece a mídia social) de alta performance e análise de resultados.

Com isso, os perfis em redes sociais passam a ter um propósito muito maior do que só criar-postar-criar-postar. Não é um cálculo muito fácil, mas precisamos mostrar que este tipo de canal consegue engajar e gerar leads de vendas mais qualificados justamente pelo relacionamento que criamos com o consumidor nessas plataformas. Depois, é só ter uma longa e produtiva conversa com o seu profissional de business intelligence para saber qual foi o retorno – se você souber, melhor ainda!

Este texto de hoje tem um tom de desabafo, mas não vejo como ele poderia ser diferente. Já fazia algum tempo que planejava um artigo deste tipo, mas só agora consegui comprovar as minhas experiências e realmente ter um pouco mais de certeza e clareza nas ideias para escreve-lo.

Se você concorda ou não comigo e chegou até o final, por favor não deixe de comentar. Este é o tipo de assunto que precisa ser debatido com muito mais frequência para que o mercado do marketing digital (ou o nome que você preferir) precise “se provar” cada vez menos. Sendo assim, espero a sua opinião!

 

 

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Jornalista, especialista em Marketing e Novas Tecnologias em Jornalismo, anda pela internet desde os idos de 1997, quando os modens ainda “cantavam” na hora de conectar. O que realmente prende a sua atenção é o conteúdo e as suas estratégias.

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